as tuas lágrimas


Some-te o bom humor, de dia para dia. É certo que nunca foi o teu forte. Mas, nestes dias… Esse ar plúmbeo sobre a tua cabeça como se negras nuvens e, afinal, este calor de setembro. Tu diluída em bátegas sucessivas e, afinal, até as ervas daninhas murcham. A bacia das albufeiras, os rios e riachos, as lagoas, as represas e as barragens, vendo baixar o seu nível da água, a terra em aflições

- Tenho sede

as boas ervas e plantas desesperadas

- Vou morrer

sem que o céu misericordioso envie chuva, e tu assim, afogada numa inundação de dar dó.

Repara: essas lágrimas não são outra coisa que palavras, outras palavras, difíceis palavras. É um discurso muito indirecto, na voz aflita

- Tenho sede

significando apenas

- Não sei dizer estas palavras.

Então, a secura não é só das nuvens que não há. É também desse pranto, cujas lágrimas

(- Não sei que te diga)

são as palavras que não sabes dizer. Portanto, quando choras, estás a escrever, com graves rasuras, um longo rascunho sofrido. Dói-te escrever tanto assim e nada de concreto consegues compor. Não sabes e não podes inventar palavras para assegurares que, mesmo em discurso indirecto, o mundo entenda o quanto sentes, e só te resta que alguém mais atento te peça

- Mostra-me onde dói.

É assim o teu choro, lágrimas que são afinal as palavras que não sabes dizer, e não tens coragem de mostrar. Então, não digas nada, nem necessário será suspender esse pranto, pois – dizem – chorar alivia. Tens é de mostrar. A nascente. Não interessa a foz para onde essas palavras vão escoar, já perdidas entre milhares mais outras tantas. Interessa o seu bolhão inicial.

Vai lá, onde elas nascem, e mostra. Pode ser que, enquanto estão puras sem sulcar terrenos poluídos, façam sentido. Para ti e para quem tu queres mostrá-las. Para quem saiba, enfim, saber ouvir o teu choro, palpar a dureza mineral das tuas lágrimas. E saiba como abraçar-te, mitigar esse imenso desconsolo. 

E se não te aparece alguém, lembra-te deste meu ombro, pelo menos.


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foto de Pavel Mylnikov

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