auto-retrato


Quis do teu corpo que se movimentasse para dizer que vives. No teu auto-retrato, estás onde queres estar, não sais de lá, não olhas para mim, sequer te pretendes próxima seja de quem for. Fechas os olhos como se por um instante tivesses desistido da obrigação de ver, e deixaste que o mundo ficasse do lado de fora. A pedra por baixo da tua cabeça é áspera, antiga, muito mais antiga do que qualquer coisa que possamos dizer um ao outro. Tem a dureza das coisas que permaneceram quando tudo o resto mudou. E, no entanto, recebe-te, e nela és, tal como sempre foste.

É estranho pensar que, entre uma uma pedra, possas retratar-te. Mas foi a tua verdade: não te abraça, porque as pedras não sabem abraçar; nada te promete como nada prometes; não se comove com o peso da tua cabeça nem com a curva tranquila do teu rosto, porque estás ali, simplesmente, deitada sobre uma pedra permanentemente rugosa, cheia de pequenas marcas, fossilizações, como se ao tempo lhe tivesse cabido a ocasião de te perceber sem nunca ter aprendido assinar o teu nome.

Tu tão quieta que quase pareces ter encontrado uma forma de não pertencer a lugar algum. Depois há a luz, a luz que te ilumina e toca. Desce sobre a pele como se soubesse exactamente onde pousar. Demora-se naquele lugar entre o rosto e o peito, onde o que ofereces ainda não começou a ser mulher. Essa luz talvez, atrevo-me, vem dos meus dedos. Que não te quer acordar, que não te faça abrir os olhos. Apenas para tocar-te o pescoço e saber que estás ali, e eu junto a ti.

Há uma sublime intimidade nisso, que não é necessariamente desejo. Ou talvez o desejo comece precisamente antes de sabermos dar-lhe esse nome. Antes da vontade de possuir, antes da palavra corpo, antes mesmo de haver uma mão. Há qualquer coisa anterior, mais simples, quase inocente: a vontade de tocar-te. O que a luz, feita em dedos meus, encontrou primeiro. É por isso que gosto tanto de te ver assim, neste auto-retrato. Não é só por seres bonita, nem a razão por que te retrataste. Não há nenhuma pose no teu abandono que sustente tais razões.

Há só o rosto entregue à pedra, os olhos fechados, a boca quieta, e essa luz que te percorre o pescoço como se cada linha tivesse sido feita para eu recebê-la. Nada mais. Nenhum gesto. Nenhuma promessa. E, contudo, aquilo que me chama. A quietude, talvez. De pertenceres a nada ou a ninguém. Isso seduz-me, do outro lado da fotografia, em que me quedo a olhar-te como quem descobre que também se pode desejar sem tocar.

Porque a distância tem destas coisas: pode impedir a mão, mas não impede a luz. E eu estendo os dedos. Sei que agora não chegam até ti, mas imagino-me luz que te pede que não ames uma pedra. Porque essa continuará áspera. É o que posso guardar do instante do teu auto-retrato, sendo eu ausente. Fora isso, quero sobretudo guardar aquilo que, dentro do instante, eu quis tocar em ti: a luz. A tua luz. Fazes-me tu agora o teu retrato de mim?


* texto sujeito a revisão

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foto de Anabela Fernandes

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