dizer silêncio


Escrever – sobre que escrever? Talvez o ócio e agora o silêncio da noite. Dizemos silêncio e sabemos que nada é silêncio. Não vive em silêncio o nosso pensamento. O pensamento como rato farejando a noite, o pensamento como rato, na calada. O rato é um animal que sobrevive por escutar, quieto, se a sua solidão é porto seguro. Escrevo sobre como não posso ser noite nem sei ser rato, querendo não ouvir o medo e a solidão. Não pode haver nem se dizer silêncio. O silêncio é sentir a distância chorar. Dormir a tarde com a chuva embalando a vidraça da janela. Dizer silêncio é respirar como o vento uiva, ou a brisa sopra. É envelhecer com as mãos sobre o colo. O silêncio é uma ruga escrita com ou sem lágrimas. É dizer a pedra aparentemente imóvel, dizer o humo da terra. A madeira que incha e seca consoante o retalho do sol, do orvalho, das areias e do pó. É o luar e as marés, também. Falar emudecendo as palavras sim e não. É dizer uma morte. Ou chorar sobre uma morte distante, que não nos pertence. Tudo vibra, confuso. Dizer silêncio é ouvirmos o horizonte, onde existe o lugar dos outros. O sossego macio dos espíritos, a mansidão dos corpos adormecidos. E a manhã, despertando com a distância apertando-se, o aniquilará, aumentando o ruído com a sua brisa azul. Ou nos sacudindo de água com o arrepio cinzento das nuvens sob os ventos. E saber escrever tudo isso. Que tudo se ouve, porque não há como dizer silêncio.

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