agosto
com o ciciar das sias
poisando e largando as árvores
o calor sobe dos caminhos lânguidos de pó
e o sol rompe a janela com a brisa
vestindo-se das minhas cortinas
feitas velas insufladas de uma
qualquer navegação
pessoa alguma na rua
agosto é um mês deserto
por companhia só os melros
assobiando o entardecer
como requiem meu
descanso delicado entre mato denso
eu bucólico entre urbana paisagem
quando a noite desce
não há só o silêncio dos cães que falam na lonjura
há também o rugido dos autocarros velhos
levando duas ou três pessoas para o seu destino
ou para parte incerta
e tudo me parece que é para sempre
um adeus que acontece
como acontece aos amantes que se despedem
por impossíveis serem amando-se
deixando um rasto de saudade
a baba dos caracóis
desistidos perante tanto calor
e pouca verdura rasteira
incendeiam-se prados e florestas
agosto sempre foi um mês de lamento
de abandono
os gatos farejando no lixo
os cães desacorrentados comendo
o que outros defecaram
na estiva
o ferro não deixa de se queixar
os guindastes concorrendo com o grito riscado no céu
pelas gaivotas – essoutras farejadoras de outro lixo
homens lá em cima pisando chão falso
de tez negra e calcária
como ficam os corrompidos corais
de onde surgem as praias
girassóis de outra monta
gente que se despe esquecida do pudor
deitada a sombrear a pele
no sal das marés
para meses depois imitarem répteis
escondidos a libertar a pele que já não lhes serve
agosto é um mês de euforia
de copos bêbedos antes da boca
do esperma rejeitado na areia nocturna
quando a lua se cansa dos gemidos
e se some de rubra face
para lá da abóbada
agosto não quer frio
nem chuva
apenas trovoada
a ignição para que o mundo perfeito
seja afinal imperfeito nos noticiários da tv
mastigados e engolidos com churrasco e vinho
e brindes porque estamos de férias
enquanto a aflição daqueles peitos e rostos
nada dizendo gritam mudas, a tv sem som
as sias deixaram de ciciar
é a vez do melro soltar a sua melancolia
por pessoa alguma na rua
o matagal crescido entre prédios e propenso a fogos
e eu bucólico entre a urbana organização
das ruas
esperando que o outono limpe tudo
que se fumem cigarros e não só girem as gruas
manipuladas por esse alcatrão
com que morrem os corais no mar
que se devolva a correria
as longas filas de espera dos autocarros
na primeira noite muito cedo
onde gente enlatada como sardinha
que os turistas levaram para longe
nesse inverno tão a norte de tudo
gourmet caro dirão
porque o agosto é um mês silly
sezão para fazer arder a quem
nunca sairá vivo da cama de um hospital
_
(foto de autor desconhecido)

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