génese


Se fosses tu os dias
se fossemos nós os dias
e se fosse eu o verão
sem inferno sobre as florestas
apenas incinerando a tua púbis

Se fosse eu os dias
se fossemos nós os dias
e se tu fosses o inverno
sem degelo sobre os mares
apenas observando meu frio entre as pernas

Se fossemos os dias
e fosse eu o teu dia
e fosses tu o meu
sem calar o amor sem dizer não
apenas dois cálices rompendo a virgindade

eu incinero a tua púbis
nenhuma erva sequer arde
tu observas o frio que tenho
e os ursos sobrevivem no polar
nós não calamos o amor
mas dos cálices há sangue de inocentes

Podemos ser o mundo
sem haver mundo connosco
sem que reconheçam
que no princípio
só havia o verbo e a costela

Se não fosses tu a deusa
se não fossem outros deuses
fosse eu aquele que tua mão não largaria
não havia mistério na humanidade
não apenas o ódio contaminando

Pudesse ser a terra
pudessem ser as árvores
o sopro de cada dia quando se alumia
Pudessem ser os mares
pudesse ser a maresia
nosso rescaldo por cada noite que se anuncia

E pudesse o mundo conceber-se em nós
o princípio era definitivamente
a separação das águas
por consumação da luz
o mesmo fogo que ateia
cada gesto nosso


_
foto de Oksana Leshchenko

Comentários