desengraçada
Tanto homem corri por ti,
ó ingrato meu desejo!
Nesta tarde que se finda
lembro como te vejo,
o quanto te quero ainda.
Releio o mesmo livro
e deixo-o sempre a meio.
Insatisfeita, suspiro:
Será que te levo,
e ainda te inspiro?
Senão, corrói-me o ciúme
e a cisma que não nego
por ficar neste queixume
lamento de nó cego.
Dessas com quem te diluis
esqueces de quem eu fui.
Pensas que me substituis?
Pudesse eu, também ingrata
dizer os versos que em nós atravessa
a história que nos retrata
ou outra que nos reversa.
Percorri os momentos,
a nossa tão adversa
vontade e disposição.
Certa de que só quis
nossos corpos, e que houvesse
comungada compreensão.
Mas tu, ingrato desejo meu,
deixaste-me assim da mão
como se fora eu
lixo que te desse nojo
para o varreres do chão.
O mesmo chão onde te dei
o corpo que não merecias.
E se pecado foi,
fui tudo quanto querias.
Agora, já não quero assim ser,
palpando onde me dói.
Nunca meu corpo quis ser
a ferida de que padecias.
Acudi-te só por prazer
não a dor de que sofrias.
Deixaste-me sem filosofia,
livro de vãs palavras.
Sei que o teu tempo soía
e quanto outras procuravas.
Motivo de lágrimas e riso;
quando de ti sobravas
em imagem perdida do siso.
Assim, senhora do meu juízo
te digo: nunca ninguém terá
tanto meu desejo, nem medos.
Só consolo em mim fará
a eficácia dos meus dedos.
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foto de Dmitry Chernoff

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