não esqueço
não esqueço de como choraste
por me veres partir
colhi daquele jardim alheio
uma formosa flor
como se de um retrato
para te recordares de mim
dizias
foste a única a quem meu desejo
nada mais pediu senão a cor delicada
de um beijo
e em troca te dei o meu corpo
quente de verão
verão de que não esqueço
meu amor
dizem que em qualquer jardim
a flor jamais tocada é a mais pura
e tocada por ti eu fui
como posso esquecer-me de ti
se flori para deixar de ser
pura na solidão?
tu, escaravelho
que mais podias ser
depois de calcado
derretido e moribundo
no chão
eu, borboleta
logo esmagada
num estalar de mãos
em pleno voo
sumida de pó
quando o sol fingindo nada ver
foi deixando o jardim
para seguir a rota
mar adentro
atrás de uma falua
ai, em que infeliz lençol
nos amamos, meu amor
se nem o crepúsculo
nos quer render
após a morte?
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foto de Alex Tsarfin

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