e a brisa se fez vento
Decidida, a mulher sorveu pela palhinha o último gole do copo, já só repleto de gelo, e levantou-se da mesa que havia escolhido a um cantinho do bar onde havia uma janela para a praça. Lá fora, o burburinho normal de uma noite quente, a esplanada, casais, grupos de jovens, cerveja, vinho, e variados cocktails. Ao fundo, bem ao fundo, o mar, cujo rugido não era audível, mas presente, pela maresia, pela escuridão, pontilhada de alguns pirilampos das embarcações quando se aproximavam do porto.
Eu não queria mais nada senão um aconchego, alguém com quem conversar, contribuir com a minha voz para o burburinho de gente feliz. Certamente muitos embriagados, mas – pelo menos naquele momento – felizes. E eu invejava-os. «Dreamtime, dreamtime», ouvia-se na música de fundo do bar, rebuscando memórias de quem reconhecia o refrão da banda The Cult. Eu, já tão velho entre aquela gente bebendo e divertindo-se, cuja maioria não reconhecia a canção.
Excepção para a barista, mulher na casa dos quarenta, com o seu meio braço tatuado, que sorriu ao perceber que eu cantarolava o refrão, quase de olhos fechados. Sorriu-me
– O que vai ser?
– A pint of Guiness
pedi, como se eu fosse irlandês ou estive em Galway.
Entretanto, a mulher que se tinha levantado do seu canto junto à janelinha, tinha saído da casa de banho e abandonava o bar por uma das suas portas. Dei fortes palmadas sobre o balcão, ansioso, para apressar o copo de cerveja, e antes que a mulher desparecesse da minha vista.
Dei conta dela a primeira vez quando saí do restaurante, após deliciar-me com peixe grelhado, bem regado por um raro branco alentejano. Passou à minha frente tão devagar que não pude deixar de reparar nos olhos solícitos, na elegância do caminhar, como se ela pudesse ser a materialização da musa que inspirou Morrison a escrever a canção Hello, I Love You
she's walking down the street
blind to every eye she meets
do you think you'll be the guy
to make the queen of the angels sigh?
e o perfume que deixava era de uma contraditória delicadeza extravagante. Seguiu rua abaixo e, embora não premeditasse ir ao seu encalço, a verdade é que seguimos o mesmo caminho. Ela mais à frente. Fui distraindo-me a observar bugigangas e artesanato que vendiam na rua, e deixei de a ver. Depois, apeteceu-me um copo fresco, e fui onde sabia que havia gente e bares - neste particular, como estava só, não sei se era sede de beber ou sede de multidão.
Mal a barista me serviu a bebida, agarrei no copo e saí, pedindo licença entre encontros de ombros que noutra altura evitaria; mas o bar estava cheio, como estava a praça, a esplanada partilhada por outros bares vizinhos. Assim que saí, senti uma brisa fresca que me sossegou, e dei o primeiro gole da cerveja, olhando em volta.
Podia ter sido uma normal coincidência, pensei eu. Porque, quando entrei no bar, entre tanta gente, e a maioria bastante jovem, eu já teria esquecido aquele olhar solícito, de olhos negros, com as maçãs salientes de um rosto redondo igualmente negro, como era a pele do seus ombros e braços despidos, e as pernas, exibindo a coxa torneada a cada passada, com o seu vestido simples e solto. Os cabelos pretos em leves caracóis, meneando como todo o corpo, ao caminhar.
Mas pareceu-me demasiada coincidência quando o seu olhar me perscrutou, quando entendi que ela estava sentada no bar, bebendo pela palhinha. Foi como a reencontrei, se posso dizer assim, sozinha como eu, ambos sós entre tanta gente, e trocando o mesmo olhar de espanto, como se disséssemos
– Tu, novamente!
A esplanada tinha pequenas mesas redondas, que eram ocupadas de pé, e acabei por encontrá-la numa delas, atenta ao telemóvel. Aproximei-me sem jeito. E sem jeito fiquei ali, quase diante dela, sem articular palavra. Sabia que ela tinha percebido, pelo canto do olho, que me abeirava, tanto que moveu ligeiramente a cabeça para o lado de onde eu vinha. Alguns segundos bastaram para que ela se esgueirasse novamente para dentro do bar.
Frustrado, e quase a desistir de qualquer iniciativa de a abordar, acabei por me sentar num dos bancos da praça. A brisa tinha cessado e eu transpirava, irresoluto se havia de insistir ou desistir. Ambos os verbos diziam muito da minha condição: estava só, era a última noite naquele sítio, e só queria conversar. Não sabia o que decidir: se voltar ao alojamento para dormir e na manhã seguinte seguir o meu caminho para casa; se ficar e tentar conhecer alguém com quem podia ter uma nova amizade, apesar de todo o envolvimento – ou assim imaginava – de flirt entre mim e aquela mulher. A coincidência passava pelo facto de ambos estarmos sós.
O que sentia ela? O que a levou ali? Porque quis trocar o olhar comigo? Seria ela tímida quanto eu? Ainda: precisaria ela de alguém quanto eu? Estava assim pensando quando me pediram, em inglês, permissão para partilhar do mesmo banco onde eu estava só a beberricar o fundo de um copo. Disse que sim, claro. E fiquei alguns minutos ouvindo as quatro mulheres falando. Só minutos depois me dei conta de que havia uma de pé. Quis ceder o lugar
– No, no
disse, perante a delicada recusa de ter de me levantar, e acrescentei
– I must find my lover, that’s all
uma meia-verdade, uma meia-mentira – ou nem um coisa nem outra – que convenceu. Nem tinha de convencer, sequer. Levantei-me, decidido a resolver a questão.
Aquela mulher, de olhos expressivos e súplices, rosto redondo com as faces salientes, ainda estava ali, algures, entre o amontoado de gente dentro do bar pequeno. E eu teimava que tinha de a conhecer. Outra vez pedindo licença, mas sem pressa, olhei em volta. Não a vi. Talvez tivesse saído, pensei, sem que eu pudesse dar conta. Resignado e com peso na bexiga, fui à casa de banho. Aliviado, saí para seguir o meu caminho para o alojamento.
Foi quando reparei que as casas de banho eram contíguas a um canto do bar muito discreto – talvez desses que os amantes preferem, para mais intimidade. Sem janelinhas para a praça. Ela estava lá, bebendo outro copo por uma palhinha. Enchi-me de coragem, debrucei-me sobre a sua mesa e, apesar de toda a minha resolução, só exprimi um tímido olá, ainda que a minha postura, de pé e com as palmas das mãos sobre o tampo da mesa, olhando para ela como se exigisse mais. Ela só respondeu
– Vim para estar só
o que desarmou, de todo, aquela minha postura. Só pude menear a cabeça, e sair dali para fora. Somando à minha carência, o facto de estar só e querer apenas companhia para conversar, senti humilhação. Não podia ser tanta coincidência. Já nem pedi licença, apenas foi ombros contra ombros até encontrar a saída. Outra vez o ar se enchia de brisa, e fui aonde mais escuro fazia, como se pudesse perscrutar o mar àquela hora. Havia menos pirilampos das embarcações. Inspirei e expirei. Veio-me uma lágrima ao olho, mas logo o meu pensamento quis resolver desmesurada lamechice.
Eu tinha bebido demais, desde o jantar até àquele momento. Apesar da recusa eu começava a sentir uma espécie de carinho por aquela mulher. Abanei a cabeça: não, não podia ser coincidência. O que a levou a reparar em mim, em perceber que eu existia? Se queria estar só, seria convicta e mesmo rude, exigindo que me afastasse; eu podia ser qualquer um outro, a engatar para uma one-night stand. Nunca tal foi o meu propósito. Assim, não podia desistir; isto é: não podia resignar-me a passar o resto da noite à espera do sono, quando havia esta mulher a dar-me quaisquer sinais. Então, voltei ao bar.
E ela ainda lá estava, naquele canto esconso de apenas três mesas. Sempre de olhos postos no telemóvel. Do seu lado esquerdo, três jovens faziam algum ruído. Do lado direito, uma mesa vazia. Pelo menos posso esperar, pensei. E pedi outra Guiness, no último canto do balcão, onde fui rapidamente atendido. Sentei-me na mesa vazia, e mimetizei-a. Puxei do telemóvel, mas para escrever algo como:
a encantadora mulher da carteira cor-de-rosa
preferiu a solidão,
num canto escuro do bar,
onde a sombra parece prolongar-se na sua pele
e, orgulhoso daquilo, sorri. Sorri ao pensar que aquelas palavras pudessem aparecer, por magia, no seu ecrã. Dez minutos nisto: eu deitava o meu olhar de soslaio sobre ela e muitos foram os momentos em que percebi que ela fazia o mesmo. Eu queria que nos olhássemos profundamente, olhos, só olhos. Vermo-nos. Porém, não foi mais do que aquele soslaio. Sem eu contar, ela levantou-se para sair. Eu ainda implorei, de mão estendida, quase tocando-lhe:
– Não, espera, não…
mas ela saiu, ignorando-me. Eu bebi a cerveja à pressa. Fui atrás dela.
Lá fora, ainda tentei saber se ela outra vez se instalava numa mesa ou num banco à fresca da noite – que nem sequer era ainda madrugada. Mas vi que ela já se aligeirava praça fora, naquela pose elegante. Fui atrás e pude aproximar-me dela na esquina que dava para a rua principal. Sem que eu pudesse dizer palavra, ela insistiu:
– Quero estar só
o que me fez abrandar o passo. A rua quase deserta. Já se tinham recolhido os que vendiam na rua, os restaurantes fechavam as portas. Ela, talvez 50 metros adiante de mim, continuava atenta ao telemóvel, mas virava a cabeça para trás. E porque entendia nesse gesto outra coisa que contrariava que ela queria mesmo estar só, proferi em voz alta, algo embargada
(ou embriagada?)
– Que mal faz duas pessoas que estão sós poderem conversar? Não quero mais nada, só isso!
e ela a olhar para trás, sem parar, eu insistindo
– Se te doi alguma coisa, a mim dói-me muita… seria estranho dois estranhos se encontrarem e partilhar o que doi a ambos?
Então ela, sem parar de caminhar, respondeu
– Eu disse que não queria companhia
fazendo-me ficar calado, a pensar que, para uma mulher como ela, a minha atitude podia representar assédio. Isso fez-me sentir o peso dos pés sobre o chão, e abrandei a minha marcha. Disse ainda, como que a rematar:
– Está bem, então.
Ela voltou-se para trás:
– Estás a seguir-me?
ao que respondei, indignado
– Sigo ninguém, apenas vou pelo mesmo caminho que o teu, vou para onde tenho de ir. Não te sigo.
Depois, ela atravessou a rua – talvez a tentar provar o que eu tinha dito, ou seria demasiada coincidência para ela. Eu fui em frente, rumo à cama que me devolveria insónia toda a madrugada que finalmente se iniciou com a brisa a dar lugar a um vento mais forte e frio.
Ainda olhei para trás, mas não a vi mais. Nunca mais a vi. E foi por isso que deixei correr as lágrimas, sem soluçar. Acho que era apenas isso de que precisava: soltar as lágrimas.
*
texto sujeito a revisão

Comentários
Enviar um comentário
O seu comentário não ficará logo visível, será visto por um moderador para evitar publicação directa de comentários abusivos (spam). Obrigado.