delírio em ré maior
Se aquela noite não tivesse acabado como acabou e houvesse nenhuma distância entre nós, teria enchido o peito de coragem, ainda que ligeiramente atormentado pela hesitação, e saltaria pela tua janela adentro. E só por ver-te então percorreria em todo o meu corpo um sangue tão fervido que a nenhum juízo estaria sujeito. Em delírio onírico me deixo levar e começo por ver um pequeno ribeiro… A fresca água é apenas uma alegoria da minha sede. Que corra essa água, sôbolas pedras, enquanto o teu corpo me apela como fruto, tanta é a polpa, tanto é o suco.
O meu amor sobre o teu peito garantindo toda a geografia da terra, e o violino de Tchaikovsky na ponta dos meus dedos em ré maior sobre a tua pele matizada… em qual andamento nos amamos, se cada um é furor, e desejo, e lágrimas? E a alma, duas numa só, gritando, gritando. Dó e dor, as horas que avançam, eu península do teu mar como jovem marinheiro incauto à procura de porto seguro entre o nevoeiro.
Permite que a minha língua desbrave o caminho que escondeste entre sombra e silêncio. Vê como regresso a ti, como em ti inauguro as estações do ano e retenho o verão sereno, não permitindo que qualquer bátega me anuncie a caducidade das folhas, se são os meus dedos que dominam as latitudes, as longitudes, os equinócios e os solstícios. Fenómenos imprevistos pela ciência enquanto o teu ânimo insinua os tremores entre o humo da caruma e do orvalho.
Todas as estrelas caem perante o amor que te tenho, e a lava quase rebentando da crosta como as marés que se sujeitam ao rumor da lua. Tudo isso na entrega de ambos, se nós apenas um corpo decidindo o presente, adiando o futuro, ignorando o passado. E haja pássaros quanto os cardos abertos, surja a fome quantas as searas do pão, haja rios que saciem a minha sede por ti, porquanto és como a fonte ribeirinha e fresca correndo entre seixos para que eu beba após subir montanha íngreme, percorrido o caminho pelo cume dos teus seios onde nunca vi gelo ou neve que me detivesse.
Perdura o violino chorando, sacudindo, gemendo ao compasso e acorde da tua voz implorando mais com o meu nome. Tchaikovsky nunca imaginaria que um acorde em ré maior pudesse ser o rudimentar remo que me bastaria na navegação sobre o teu corpo, observando a amarra para aportar em ti a desejada semente da minha virilidade. Hesita ainda o violino quando do beijo sôfrego com que esmagamos os lábios, o solene entendimento das nossas línguas entrançadas como dedos que se querem.
Então, os ombros e as mãos comungando do mesmo desejo, para que os corpos possam ser apenas um. A terra respira, a alvorada cresce no soprar de uma flauta, a lua esconde o rosto perante o crepúsculo a leste e, no instante preciso em que o sol incide os primeiros raios sobre as altas e frondosas árvores, contigo a encorajar-me com o meu nome gritado na tua voz já rouca, desço à terra com a leitosa luz matinal, num odor de suor que nos inebria, as bocas outra vez unindo-se para separar as ténues neblinas, e sou eu pleno em ti, brotando como bolhão na primeira vez. O violino tão rápido, tão rápido, implorando, chorando, para, no fim, num suspiro de enfático último refrão, a confirmar o quanto te amo.
Porém, a lucidez deste final de tarde não confere esse delírio. Tal como não soube como te amar, se é que te amei e apenas vi em ti uma quimera impossível. Há, de facto, distância entre nós, e que podia eu saber das tuas janelas? De outra forma, nenhuma coragem. Apenas a modorra, alimentada pelas sombras dos dias esvaindo-se. Só ouço o assobio do melro recolhendo-se. Já é tão tarde para tudo. Se há delírio, minhas pálpebras correspondem, cerrando-se num o sonho que a ti sempre recorre. Estarei perdido, se não estás, na madrugada em que acordarei, exausto, e a contar as horas da insónia. Escutarei deprimido o ré maior de Tchaikovsky, com aquela sensação de abandono, do ridículo. A manhã seguinte será para arrumar o que desarrumei entre o tédio e a esperança. Nessa altura, já nada esperarei. Que culpa tem este violino lamentando?
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texto sujeito a edição
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foto de Aleksandr Kislov
o ré maior de Tchaikovsky:

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