testemunho


Vou em passo lento nesta última caminhada, sob a certeza íntima da minha morte. Não aguardo bençãos ou redenções; basta-me descer as veredas dos salgueiros até à beira-rio, aquele recanto só meu que mais ninguém demanda. Vou farejando a direcção do vento, orientando-me pela inclinação das pequenas vagas do estuário – mil e um indicadores que apontam o rumo, a jusante do agora, liberto já das circunstâncias que teceram os meus oitenta anos de idade.

Encontrei o pequeno areal já não deserto. Sentei-me com o espanto mudo do condenado perante a sua última ceia, contemplando os fartos seios e os velos púbicos destas mulheres que se banham e saem da água numa lentidão de câmara cinematográfica. Cintilam os seus corpos, brancos uns, morenos outros, e as gotas ainda por secar reflectem os espectros da luz desta tarde rendida. Não sou um espião de intimidades alheias; sou uma presença recebida por uma secreta empatia destas ninfas – embora possam dizer os dissimulados do pudor que são bruxas ou feiticeiras.

Não percebi como dei com elas, ou se apenas se fizeram visíveis quando assomei de entre as sombras dos salgueiros. Parece-me, contudo, que já sabiam de mim antes da minha aparição. Talvez isso explique esta proximidade quase táctil, este mistério de haver ainda corpos que se banham nus sem inibição perante um olhar masculino; mulheres raras que concedem a homens raros a graça da veneração. O caderno onde aponto os meus últimos esquiços líricos, aberto no meu regaço, legitima talvez a minha presença. Bebo esta imensa ternura.

Sendo a morte precedida por este testemunho do que o mundo guarda de mais belo, vale a pena morrer sem ressentimento. Aflige-me a dor, o sofrimento mecânico; na morte, o sofrimento é uma obscenidade. Diante delas, os preconceitos expiram.

Os sorrisos e a delicadeza destas mulheres resumem o mundo e a criação, feitos pelo pó ancestral das estrelas ou pelas humanas concepções celestiais. Sorrisos e delicadeza que desabrocham do espírito e assomam aos corpos helénicos que possuem. Mulheres assim são o útero florido do mundo, o leito que quero para o meu repouso definitivo.

E, se me for concedido um último desejo, que os cabelos destas mulheres sejam o epitáfio do meu túmulo, até que um novo ciclo me reinaugure em vagido futuro, ao colo de uma outra mulher – essoutra, a predilecta Mãe, outra vez e para sempre,

Amen.


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foto de Ricardo Zanetta

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