jonsok


Aquela humidade tropical: trovejou, e uma bátega fez o ar mais fresco, mas logo o calor abafado regressou para a tarde mais longa do ano. Mas por cá, a promessa era a da noite mais longa, dure esta embora menos horas que o dia, desde o raiar do sol. Coisa fascinante para ti.

Foste cheirar o manjerico, levemente, só com as mãos, embora a botânica da erva não se ofenda com o nariz – é tudo tradição. E assim que o crepúsculo vier, prometia, logo verás os balões de São João, como estrelas que arriscam a velocidade do vento – que também é tropical. Traiçoeiro como era, bem podia carregar nuvens mais densas, e cair uma nova bátega para nos abençoar de fresco.

Vinhas dos fiordes, lá longe do norte, e não sabias lidar com este clima do midi quando o verão se oferece para as festas pagãs que o cristianismo transformou em santos populares.

– É tudo tão agradável – sorriste, porém:

– É insuportável este calor, não achas? – pensaste, com o olhar atrevido sobre mim.

Aquiesci que não íamos para o meio da multidão, nem sequer para ver o fogo de artifício.

– Basta-me a fogueira de Jonsok que farás, sou adversa a multidões

argumentaste; mas a única fogueira que farei será para assar a sardinha a pingar no pão.

– Sardinha grelhada? Mas isso come-se assim?

o que me fez soltar uma gargalhada, deixando em segredo se eu tinha, ou não, uma complicada receita de culinária:

– Logo verás!

E foste sorrindo, vendo o verdejante pequeno prado do meu quintal, e o baloiço ali que fez com que o teu sorriso pudesse ser mais brilhante do que já era.

Trazias um vestido curto, mas a tua farta melena ruiva fazia-te transpirar o pescoço, os ombros e as costas. Pelo que desceste as alças. Logo ali, o meu pequeno tanque cheio de água fresca: uma piscina portuguesa?, perguntavas, e sem esperar resposta, afirmavas: uma autêntica piscina portuguesa nos arredores do Porto!

O teu olhar não perdeu o atrevimento que tinha, como se uma intenção não te saísse do pensamento. Vi como transpiravas, vi como querias o baloiço entre a erva e olhavas de soslaio para o tanque de água corrente. Aquiesci, porque também era o meu desejo:

– Podes tirar a roupa, se quiseres… enquanto não vêm os convidados, pelo menos.

E não precisaste de pensar duas vezes. Já o tinhas pensado.

Num cenário diferente de outras vezes, vi-te nua, baloiçando divertida entre a erva que me esquecera de aparar, para logo resolveres, entre gargalhadas e gritinhos, entrar na água fria do tanque. Não pude evitar: também tirei a minha roupa e juntei-me a ti. Entre o divertimento infantil e o olhar sério que depois confidenciámos, com imenso desejo, não pudemos evitar amar-nos. As horas passaram. Estávamos deitados sobre uma manta a descansar quando um trovão soou ao longe e se ouviu a campainha, feita de sino rústico, a tocar desenfreada. Percebi:

– São os meus familiares

e logo corremos a vestir-nos.

Depois, então, foi com cerveja e sangria que provaste a sardinha assada, nunca imaginando como era tão diferente da enlatada que conhecias. Todos os meus familiares ficaram entusiasmados com a tua calorosa boa disposição, enquanto movimentavas a trança que fizeste no teu cabelo de um ombro para o outro, e bebias, gargalhando. Ficaste fascinada com o deitar dos balões e do foguetes, em vez da fogueira enorme. Adormeceste nos meus braços, ébria de álcool e de alegria. E dormiste quase todo o dia seguinte.

Já era noite e tinhas de apanhar o teu voo de regresso aos fiordes. Confessaste ter sido a melhor noite da tua vida. Que levavas a foto que fiz contigo no baloiço como a vontade de cumprir a tua promessa de regresso. Hoje, é São João aqui, com o mesmo calor tropical, a ameaça do trovão e da bátega. Jonsok aí, nos teus fiordes, estarás já saltando fogueiras. Por cá, sem familiares que optaram por outro tipo de festejos, nem sequer ainda acendi o fogo para assar as sardinhas. Não regressaste, apesar da promessa.

O baloiço tem as suas cordas esverdeadas depois de tanta chuva do inverno passado. O tanque secou, sei lá a razão. A erva está mais alta. Mas isto não recorda apenas um ano. Recorda oito, desde a última vez que te vi, gargalhando. Hoje é São João aqui, e é o Jonsok aí. Mas nunca nada foi como a melhor noite que confessaste. Pecado meu não ter dito o mesmo, porque essa noite foi o melhor São João que alguma vez tive.


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foto de FotoFlair

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