três variações sobre coisa nenhuma


primeira variação
É curioso não reparar em nada. Quase tudo me tem escapado à observação. Tenho tão só absorvido por dentro o que este fim de ciclo, ou lá o que é, me tem sugerido. E não me concede confidência nem me faz segredo algum. Nem ao ouvido me fala, é por dentro, como qualquer coisa que faz comichão e depois implode. Há em mim tanto de altas montanhas como de depressões de declive vertiginoso. Caio mais depressa do que me levanto e, quando então me levanto, subo até onde já o oxigénio rareia. Entre picos e desfiladeiros vejo quase nada, excepto particularidades feitas de água, arrepios de assombro, pavores de um sol muito apressado. Vejo ainda a curiosa terra, musgada, feita almofada onde, contudo (contuso), quebro cada osso na queda. Sigo depois rente e entre altos muros, ora perdendo tempo, ora estugando o passo como se tivesse de ir a algum lado. Nenhuma rosa, porém, só os ventos. Que sobram, para quem os apanhar depois de mim, levando o cheiro de besta que procura uma toca onde hibernar. Vejo também sombras. Todas. As que o são por imposição da luz e as que surgem sem luz alguma. No baço reflexo dos poliedros da calçada, escorregadios de humidade, ainda vejo os meus pés em flagrante desalinho, e gente nenhuma. Ou gente em que eu deixei de reparar, que me escapa à observação. Não sei quem passa, ou quem porventura poderá estar parado, ficando a olhar a minha travessia em ângulo, como boneco animado e fugindo solto de um grave quadro de Hopper. Um desses, mas sem sol nos ângulos. Nem ouço ruído algum, a não ser a caixa arrítmica dentro do peito e essa proponente (prepotente) voz interior que me vem sugerindo o que tenho de absorver por dentro. Mas, espera… uma lonjura… quaisquer cães que latem, entre ressas de claridade e penumbra, fazendo a distância crescer. E é curioso: distância sobre o quê? Ainda mais curioso por nem sequer sentir coisa alguma. Não sinto nada. Podia dizer: ah! que alívio, ou: ai! que dor, mas nem uma nem outra. Outrora, havia um piano, desvanecendo como quem desce ao mais fundo dos poços. Talvez uma boca em estrondo. Talvez… e sim, não sigo em silêncio concreto, afinal. A boca estrugida, intercalada pela distância dos cães latindo. Ouço sim, estou certo agora de que ouço trovões. Quem me amará tanto ao ponto de me engolir? Para, da mesma forma, percebendo incauta traição, se indispor com um arroto alarve, seguido de uma dor de cabeça capaz de dividir o mundo, já tão rebentado pelas costuras? Quem? É curioso não saber de nada: se sou, quem fui, por ou o que havia de ser. E dizer nada, ou saber dizer coisa nenhuma. Nem sequer abrir a boca.

segunda variação
Sem dizer muito, quis corresponder em harmonia. Desde que conseguisse harmonia. Como consegui-la se não tenho, ao mesmo tempo, como teclar e soprar o fumo do meu cigarro, sequer pouso nenhum para ele quando, entre duas longas fumaças, incido sobre o teclado? Fui verificar o chiqueiro das galinhas, e a velocidade das naves na nacional. Alguma pressa entre as curvas para a claridade do sol intensificando-se a oeste. As galinhas raspam restos de coisa nenhuma. Também o copo, como se beberricando as agulhas caídas da caruma… O chiqueiro é alertado subitamente pelo cacarejar constante das galinhas porque, fora das redes, há um pequeno cão que surge, abandonado e indefeso, subtilmente fero com a fome. Lá mais a norte ergue-se o verde desconsiderando o inverno instalado. Sentir-me cansado é eufemismo para esta lassidão com que me deixo ficar envolto na paisagem. E o sangue inclinando com o sol. Afinal, queria dizer muito, e nada digo. E, como o cão abandonando o chiqueiro com o rabo entre as patas, deixo-me anichado até ver a sombra diluindo o recorte daqueles montes. Apetece-me nada, e muito menos interpretar o que quaisquer palavras possam nos meus dedos discernir. Tudo me nega a harmonia, se é que não há harmonia nessa negação. Isto é: que há mundo, que há no mundo muito do que se pode escrever. Mas a escrita é para além das janelas; não se soma, subtrai-se. Hoje não quero essa subtracção. Desejo apenas deixar cair os óculos quando o sono perturba. E deixar derrubar-me sem me deixar vencer por seja lá o que for. Se a lassidão me procura, à lassidão me faço encontrar. Isso também é harmonia: deitar a tarde a dormir. Outro cigarro, entretanto. O copo vazio e os fantasmas a tentar preenchê-lo, mas eu negando, sem negar o que há de mim: não é tempo, nem tempo tenho. Os pardais ainda tentam sortes no chão, saltitando entre as poças que a chuva deixou, à procura de uma ou outra semente perdida. Sorrio. Por saber que, agora, por cada salto do pardal, mais o dia terá outras palavras por dizer. Terei a estrela d’alba por anunciação. E os estorninhos deixando de correr. Talvez a naves ponderem a sua velocidade na nacional. Luzes abertas sobre a curvas, como faíscas. O enfeite multicolor das varandas. Deixar entrar o frio. Deixar-me ir quando se adensa o nevoeiro, ou o retorno da chuva. Enquanto as galinhas ainda raspam o chão por coisa nenhuma. Enquanto as folhas da nogueira não caiam todas, por decência. Encho o copo, meio dedal apenas. Dizer que escrevo? Não… que modorra! Cancela fechada, o frio adentra. Meus ossos não podem. Agora, mais lassidão. Eu todo enfeitado para cobertores. Fecho tudo, faz mesmo muito frio.

terceira variação
Nenhum arrependimento irei tragar. Tudo se me oferece fresco e libidinoso quanto este copo: todo o frio lá fora e o sangue quente a ruborizar-me o rosto. Virá o sol, no santo salto de pardal a desempoeirar a neve com que o inverno nasceu, já tão engelhado de velhice. Correrão os primeiros dias comigo correndo eu com eles, que inveja nenhuma lhes terei, apenas o acre nojo de um luto que é – do mal o menos – necessário. Irei verificar cada frincha, atento à guilhotina do vento, às agulhas férteis das chuvas que alagarão a terra onde está depositada aquela semente, reinventando-se agora pela faísca do solstício. Limparei o cinzeiro dos cigarros por arder, e darei aos ombros por indiferença. Atento aos carros circulando quase em contra-mão face aos buracos da estrada, fumegando mais que o nevoeiro que lhes adensará a luz dos faróis, como o circular arroto carbónico dos seus escapes. Terei cuidado com as encruzilhadas. Serei forte para resistir às fálicas tentações da mão direita, chocho orgasmos entre as pernas, por mulher nenhuma. Irei vigiar os esqueletos escuros das altas árvores, para testemunhar a primeira e pequena espiga dos ramos, crisálida das folhas por despontar. Mirando as estrelas, verei nascer-me o anúncio de uma verruga no dedo indicador, pela minha consciente fome de abril num cravo promissor quando já estarei arrumando em velhas prateleiras de fotos e filmes a preto & branco. Farei da família o meu último ramo. Onde terei poiso nobre, o poiso que me acolherá nas noites mais difíceis. E acolherei eu as outras penas, redimindo a minha velha culpa de galo imberbe que nunca soube cantar, apesar da fome e da sede saciadas. Não me sobrarão migalhas, nunca mais para quem nunca as pediu. Terei a fortuna nos ouvidos, harpa e flauta, pianos para brindar depois, entre a luz. E migrarei numa longa carta de despedida, abrindo finalmente a cancela esconsa das palavras com que sempre construí medíocres sonhos. A lua em sentido figurado poderei esquecer, saudando então marte e vénus num bailado síncrono entre a raiva e o ciúme. Dois copos de vinho serão o bastante para esclarecer quaisquer dúbias intenções. Fogo sem artifício, mas igualmente espectacular, será o fim do mundo ou o fim de tudo sem eu mexer uma palha para tamanha finitude. Estarei apenas com um pé neste e quase inteiro num outro mundo para, no ciclo, poder vagir como a nascer outra vez. Portanto, nenhum arrependimento tragarei. Tudo estará na última gota deste copo: por cada pedra gelo, um gole à resiliência. Então, depois, cobrir-me-ei dos quarenta fios para um sono de que ignoro ainda o despertar. Na esperança – sem equívoco – de poder arredar cortinas e estores velhos para ver e ouvir, no trompete que me anunciará a prontidão de recomeçar. O vinho… bem, o vinho e o gin ficarão reservados para o seguinte equinócio, jeito de preparação festiva para o solstício quente que virá meses depois.


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foto de Erzsebet Szasz

texto sujeito a revisão

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