epístola
Então, cansada? É normal. Vivem-se os problemas, o trabalho, os outros, os outros dos outros. Aqueles que não queríamos que fossem como os demais e, no entanto, se revelam mais distantes que os estranhos. E não há tempo. Para mirar bem o reflexo no espelho quando nos erguemos da cama, lavamos a cara num compasso ternário enquanto não salta a torrada para duas trincas, e o café engolido a um tempo, com pigarreia. Ainda que tentes dormir mais, não será como o sono da madrugada; por cada ruído, despertas de uma vigília que apenas mistura o que os sentidos apreendem e os resquícios esconsos do subconsciente, à espreita.
Aqui me afogo, obrigado por perguntares: E tu, como estás? Tenho a mesma tosse húmida de sempre. Os lenços tingidos como se neles fossem esmagadas pétalas vivas de papoila. Como as rosas vermelhas de que tanto gostas. E, por falar nisso, como vai o teu jardim? Espero que tenhas o cuidado de que me desleixei, que as ervas bravas não te confundam; também elas florescem, mas acabam por esmagar, com raízes profundas, o alimento necessário para que as tuas rosas e orquídeas medrem.
Aqui, nasceram pés de abóbora sem que nenhuma semente fosse deitada à terra. Começaram por aqueles simples rebentos de duas pequenas folhas de um verde muito vivo. Perdoei-lhes o atrevimento entre as poucas alfaces que ainda consegui plantar. O resultado foi que as alfaces se intimidaram perante a força com que os pés de abóbora se transformaram em semanas, nas suas folhas mil vezes maiores, caules mais robustos e uma floração tão enorme que me insufla os pulmões de vã esperança. Com um sorriso, percebi, passadas outras semanas, como o fruto vai crescendo, enquanto a alface se resigna numa mera existência, pequena demais para tirar da terra.
Afirmar que estou cansado é eufemismo para tudo o quanto sinto: o corpo, quem me toca e me olha com olhos que já evitam os meus, o sol insistindo na vidraça cegando-me não só a visão, mas o entendimento. Lembrar como e quem fui é, agora, de uma enorme canseira.
A minha mente viaja, sabes? Como se entrasse num comboio de alta velocidade sem lhe conhecer o destino. Ao fim de um tempo – que é sempre breve, por mais anos que se some –, vou conseguindo ver o terminal, onde os carris não mais se prolongam. E digo: pronto, depois dali, não há mais caminho. É um desfecho abrupto para quem queria dar a volta ao mundo, completando a circunferência para voltar ao ponto de partida e continuar o que deixou. Porém, aceito que a minha viagem cessa aqui.
Não completei a circunferência. O fim dos carris, bem antes da circunavegação, acentua o fim de tudo o que sei, conheço, vi, ouvi, senti. Mas a linha acaba onde a terra recomeça. Sei que as abóboras lá fora vão amadurecer, e que alguém as colherá quando as largas folhas se tornarem amarelas, secas e, por fim, estaladiças. É o que desejo para o que sobrar de mim: o atestado da minha passagem, guardado numa abóbora. O que restar, como planta que cumpriu o seu ciclo, ficará quebradiço das folhas, caule e raiz; há-de ser lama com as primeiras chuvas do outono para alimentar o humo da terra que me volverá sucessivamente, feito pó.
Termino – que palavra terrível nesta circunstância –, esperando saber de ti. Uma certeza terás: mesmo que continues cansada, eu estarei perto para saber das tuas rosas, das tuas orquídeas: se as podaste, se continuas a arrancar as daninhas. Mesmo que seja em plena madrugada, despertando-te às três ou quatro horas do teu sono profundo. Porque se for verdade o que dizem, de que os fantasmas existem, espera-me plasmado numa sombra, num reflexo. Ou, quem sabe? Talvez num pé de abóbora nascido do nada entre as tuas flores.
Peculiar, pensarás, mas logo aí vais perceber: ainda te escrevo. No embaciado do espelho quando saíres do duche, no ranger dos móveis quando sozinha em casa… e, enfim: num rebento com duas pequenas folhas de um verde muito vivo, sorrindo às tuas rosas e às tuas orquídeas.
O sempre teu,
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(foto de autor desconhecido)

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