caligrafia
Preso, livre. Livre, penso. No vento. Dele, a colina ouvindo o quanto assobia. Há quanto tempo não ouvia o som da minha caligrafia sobre o papel? Deixou de ser o que era, como eu me esqueci de quem fui.
Caligrafia e eu estamos disléxicos, deixamos de ser quem éramos. Disléxicos na forma de dizer e de sentir. Nenhuma discussão, apenas os ruídos da tarde que sugerem tudo menos presença humana. Habita a cidade nenhuma voz, apenas os sons das máquinas e aqueles cães aquém e além, medindo a distância entre mim e o mundo e dele o quanto não ouço.
Quero aprimorar a caligrafia. Temo que, doravante, nem eu mesmo decifrarei tanto gatafunho. Se não treinar, o meu papel nada dirá. Mas eu quero dizer. Quero dizer das almas gémeas afastadas pela sorte e pela sorte só podem reencontrar-se – um discurso tão batido. Porém, que mentira há nisso?
Se, quando eu digo
– não sei
há alguém que diz
– também não sei
e se eu divago
– talvez
essoutro alguém pergunta, na vez de mim
– talvez o quê?
como soletrando cada raiz do meu pensamento.
Porque quem não sabe não diz porquê. E se eu digo que não sei, outro talvez dissolva a dúvida: porquê?
É isto coincidência ou apenas matemática?
E se toda a luz falhar? Preso, livre. Livre, penso. Nos dias. Naquilo que sobra. Para continuar, eu não sei; saberás tu, equívoca alma gémea? Como é a tua caligrafia?
Suaves, delicados e vulneráveis são os membros dos deuses. Concordas?

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