partilha
Adoro, gosto tudo de ti, e
partilho com o mundo quem és, desde que nada haja que me lembre com mágoa de quem
tive e me disse que adorava, gostava tudo de mim quando, no entanto, nada de mim quis
partilhar do que adorava, gostava; qualquer coisa que fosse. Portanto, nenhum
mundo havia. Nem mesmo o sol quando eu o recebia no novo ciclo, cheio de
esperança. Muito menos quando as chuvas anunciavam aquelas sombras sob as quais
eu sempre padeci. Ela, invariavelmente, de cara voltada. Não sabia dizer o
quanto eu seria forte, contrariando as nefastas sombras, que eu teria coragem
para dissipar nuvens polutas. Mas entendo, se por fortes eram as suas paredes
de papelão, e que a coragem lhe faltava para dizer: eu quero assim. Diz-me tu agora,
imperativa: esquece, sem dar valor a quem tu não lhe interessava senão pelo
ego. Diz-me tu agora, concedendo: banha-te, que a água escorrendo confere-te
razão, e depois vais aonde esqueceste de ir. Foram tantos anos assim, esquecendo-me
aonde ir, por me renunciar, por já não saber como corria a água sobre mim. E é
isso que faço, com o que dizes para fazer: deixar a água esquecer-se de mim, comigo
a esquecer-me do escusado que tive, esquecer-me dela. Ela, que quis tudo e dela
quis eu tudo para mim. A noite, ainda que insone, também cura. Portanto, diz-me:
vai!, que eu vou. Dizes? Vai então, dizes tu finalmente, e quando
me dizes assim, a tua voz é maternal, como sempre desejei, e tudo o que sinto é
ser outra vez o contrário do que o ralo leva para o esgoto, abandonando o passado
enquanto se esgotam as memórias de quem me quis mas só se querendo a si própria.
Tens as árvores e os arbustos no
teu jardim, escreves sobre eles e pedes: partilhas? Eu observando o sol
caído no horizonte, lembrando fotografias das quais reminiscências apenas; tu
insistindo: partilhas?, o copo de água com limão, fitado no sol pela mesma
carícia, o gelo derretendo, e lembro-me, posso lembrar-me: os joelhos redondos,
aqueles pezinhos de algodão, pequenos, sem fazer ruído, e as coxas roliças. Tudo
o que queria para que o gelo quebrasse, senão derretendo. Ela enrodilhada na
sua teia de delicodoce sedução, eu mosca morta, o morcão entre as minhas pernas
sem mexer e, porém, eu fodia, eu fodia-a entre as coxas brancas, a vulva como
cálice para a minha sede. Eu bebia, como bebo esta água com limão. Tu ainda
insistindo, partilhas ou não?, enquanto eu esquecido de mim, como me
esquecia com ela. Por ela, bebia outra poção para lhe dar oportunidade, ela tinha
tudo para ser como eu queria quem fosse, porém, só pernas abertas; o frango
assando no grelhador e tu, daqui a nada os vizinhos reclamam com tanto fumo,
e já só afirmas, vais partilhar, com certeza que partilhas.
Eu gosto tudo de ti, e adoro
partilhar com o mundo o que fazes, as sombras nunca polutas do teu jardim, o
cheiro intenso a rosas, o alimento fumegando para o jantar, mas não sabes bem
como eu fumegava com ela, des-acrescentando-me, fazendo-me suar para lhe dar
tão pouco mais do que ela conseguia com os próprios dedos, o que me entristecia,
quando me julgava foder, a fodê-la entre os joelhos redondos e as roliças e
brancas coxas levantadas, enquanto ela suspirava no seu hálito antigo,
sussurros guturais de quanta saudade, não sei dizer se realmente por mim, ou
chama parcamente reacendida por desejos
antigos. Tu não sabes, mas eu era tudo nela, negando-me. As suas declarações despropositadas de um amor
intenso que sempre duvidei serem por mim – como podiam ser?, sem o sol
espantado para além dos pirilampos que vinham, raras vezes, por testemunha
daqueles encontros de fraca fé. Pelo engano, acabaram por desistir os pirilampos,
mas nunca as luzes citadinas na outra margem, onde porventura já estarias tu,
entregue tu própria às amarguras do teu outrora, sempre só, à espera de quem
dissesse: sim, eu partilho tudo de ti!
Mistério nenhum têm as águas do
rio, bulindo as margens e os salgueiros, nem de dia, nem de noite. São as mesmas
águas que vêm a montante preparando as letras que anseias desaguar a jusante, perpendiculares
às pontes desambiguadas da simbiose que hoje perpetuamos. E o mar hoje ruge,
dando aviso de que o verão que se põe como o sol, vindo a crescer o vigor novo
de um outono promissor de renovação, de frescura. Outros outonos me deixaram lânguido,
indisposto sobre o que fazer depois. Varridos os pirilampos, os salgueiros
aperfeiçoando, a cada dia passando, a sua esquelética soberania, pondo outras
sombras sobre o rio; nenhuma carne assando no grelhador já arrumado para outra
sazão, o chá na vez da limonada, tu toda afecta de carícias e pedidos de
atenção, enquanto eu ainda moendo aquelas já fracas memórias, ela rasurava
cadernos diferentes do teus, esperando sempre a minha confiança no quanto ela
não sabia confiar em si mesma. O passado é um país distante, disse o cantor, e
eu durante anos dei aos ombros, como quem definha não se importando. Importantes
eram só os olhos dela, lembravam-me sempre algo, alguém, ou simplesmente
qualquer coisa que perdi num passado que não consigo reviver, talvez sobreviver,
por isso recalcado, penso assim.
Sim, eu partilho tudo de ti com o
mundo. Como adoro, gosto tudo de ti. Mesmo que os teus joelhos não sejam
redondos, mesmo que as tuas coxas não tão roliças, e nunca alvas por seres tu
completamente morena. Por favor, não transpires das mãos, a revelar medos
equívocos. E quando decidires dar-me o corpo, quando for o tempo de tanto tu
como eu superarmos as agruras e os abusos a que nos temos sujeitado, como
virgens inadequados, ingénuos; quando assim for, não te esqueças tu também de
me partilhares com o teu mudo e digas a todos, quem quer que seja: adoro,
gosto tudo dele e por isso o partilho com o mundo, sabendo que o único mundo
que tenho agora és tu.
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foto de Alexandr Kuzovkov
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