partilha


Build me a woman,
Make her ten feet tall
James Douglas Morrison

Adoro, gosto tudo de ti, e partilho com o mundo quem és, desde que nada haja que me lembre com mágoa de quem tive e me disse que adorava, gostava tudo de mim quando, no entanto, nada de mim quis partilhar do que adorava, gostava; qualquer coisa que fosse. Portanto, nenhum mundo havia. Nem mesmo o sol quando eu o recebia no novo ciclo, cheio de esperança. Muito menos quando as chuvas anunciavam aquelas sombras sob as quais eu sempre padeci. Ela, invariavelmente, de cara voltada. Não sabia dizer o quanto eu seria forte, contrariando as nefastas sombras, que eu teria coragem para dissipar nuvens polutas. Mas entendo, se por fortes eram as suas paredes de papelão, e que a coragem lhe faltava para dizer: eu quero assim. Diz-me tu agora, imperativa: esquece, sem dar valor a quem tu não lhe interessava senão pelo ego. Diz-me tu agora, concedendo: banha-te, que a água escorrendo confere-te razão, e depois vais aonde esqueceste de ir. Foram tantos anos assim, esquecendo-me aonde ir, por me renunciar, por já não saber como corria a água sobre mim. E é isso que faço, com o que dizes para fazer: deixar a água esquecer-se de mim, comigo a esquecer-me do escusado que tive, esquecer-me dela. Ela, que quis tudo e dela quis eu tudo para mim. A noite, ainda que insone, também cura. Portanto, diz-me: vai!, que eu vou. Dizes? Vai então, dizes tu finalmente, e quando me dizes assim, a tua voz é maternal, como sempre desejei, e tudo o que sinto é ser outra vez o contrário do que o ralo leva para o esgoto, abandonando o passado enquanto se esgotam as memórias de quem me quis mas só se querendo a si própria.

Tens as árvores e os arbustos no teu jardim, escreves sobre eles e pedes: partilhas? Eu observando o sol caído no horizonte, lembrando fotografias das quais reminiscências apenas; tu insistindo: partilhas?, o copo de água com limão, fitado no sol pela mesma carícia, o gelo derretendo, e lembro-me, posso lembrar-me: os joelhos redondos, aqueles pezinhos de algodão, pequenos, sem fazer ruído, e as coxas roliças. Tudo o que queria para que o gelo quebrasse, senão derretendo. Ela enrodilhada na sua teia de delicodoce sedução, eu mosca morta, o morcão entre as minhas pernas sem mexer e, porém, eu fodia, eu fodia-a entre as coxas brancas, a vulva como cálice para a minha sede. Eu bebia, como bebo esta água com limão. Tu ainda insistindo, partilhas ou não?, enquanto eu esquecido de mim, como me esquecia com ela. Por ela, bebia outra poção para lhe dar oportunidade, ela tinha tudo para ser como eu queria quem fosse, porém, só pernas abertas; o frango assando no grelhador e tu, daqui a nada os vizinhos reclamam com tanto fumo, e já só afirmas, vais partilhar, com certeza que partilhas.

Eu gosto tudo de ti, e adoro partilhar com o mundo o que fazes, as sombras nunca polutas do teu jardim, o cheiro intenso a rosas, o alimento fumegando para o jantar, mas não sabes bem como eu fumegava com ela, des-acrescentando-me, fazendo-me suar para lhe dar tão pouco mais do que ela conseguia com os próprios dedos, o que me entristecia, quando me julgava foder, a fodê-la entre os joelhos redondos e as roliças e brancas coxas levantadas, enquanto ela suspirava no seu hálito antigo, sussurros guturais de quanta saudade, não sei dizer se realmente por mim, ou chama parcamente  reacendida por desejos antigos. Tu não sabes, mas eu era tudo nela, negando-me.  As suas declarações despropositadas de um amor intenso que sempre duvidei serem por mim – como podiam ser?, sem o sol espantado para além dos pirilampos que vinham, raras vezes, por testemunha daqueles encontros de fraca fé. Pelo engano, acabaram por desistir os pirilampos, mas nunca as luzes citadinas na outra margem, onde porventura já estarias tu, entregue tu própria às amarguras do teu outrora, sempre só, à espera de quem dissesse: sim, eu partilho tudo de ti!

Mistério nenhum têm as águas do rio, bulindo as margens e os salgueiros, nem de dia, nem de noite. São as mesmas águas que vêm a montante preparando as letras que anseias desaguar a jusante, perpendiculares às pontes desambiguadas da simbiose que hoje perpetuamos. E o mar hoje ruge, dando aviso de que o verão que se põe como o sol, vindo a crescer o vigor novo de um outono promissor de renovação, de frescura. Outros outonos me deixaram lânguido, indisposto sobre o que fazer depois. Varridos os pirilampos, os salgueiros aperfeiçoando, a cada dia passando, a sua esquelética soberania, pondo outras sombras sobre o rio; nenhuma carne assando no grelhador já arrumado para outra sazão, o chá na vez da limonada, tu toda afecta de carícias e pedidos de atenção, enquanto eu ainda moendo aquelas já fracas memórias, ela rasurava cadernos diferentes do teus, esperando sempre a minha confiança no quanto ela não sabia confiar em si mesma. O passado é um país distante, disse o cantor, e eu durante anos dei aos ombros, como quem definha não se importando. Importantes eram só os olhos dela, lembravam-me sempre algo, alguém, ou simplesmente qualquer coisa que perdi num passado que não consigo reviver, talvez sobreviver, por isso recalcado, penso assim.

Sim, eu partilho tudo de ti com o mundo. Como adoro, gosto tudo de ti. Mesmo que os teus joelhos não sejam redondos, mesmo que as tuas coxas não tão roliças, e nunca alvas por seres tu completamente morena. Por favor, não transpires das mãos, a revelar medos equívocos. E quando decidires dar-me o corpo, quando for o tempo de tanto tu como eu superarmos as agruras e os abusos a que nos temos sujeitado, como virgens inadequados, ingénuos; quando assim for, não te esqueças tu também de me partilhares com o teu mudo e digas a todos, quem quer que seja: adoro, gosto tudo dele e por isso o partilho com o mundo, sabendo que o único mundo que tenho agora és tu.


_
foto de Alexandr Kuzovkov

texto sujeito a edição posterior

Comentários