virgem antes de ser
Trazia na algibeira um peso que se abeirava a uma oportunidade de se concretizar. Conviveu, confessou, quis entender o próximo, sentiu cheiros e sabores, observou. Afinal, não: impossível a felicidade conjugada com o verbo ser. Percebeu isso ao sentir como se poluía a humanidade. Sentiu-se triste porque inacabada, e subiu ao cimo de um relevo, a um passo do abismo.
Deu conta do escuro fatal das águas correndo declive abaixo. Era como a vida: tudo tão precipitado, antes de qualquer fim. E percebeu que a humanidade caminhava numa abissal existência, culpando o céu por ignorar a sua ambição, e que viver era um absurdo.
Recolheu-se num gesto de resignação, a baixar os braços, a lembrar na algibeira o volume e o peso do que a levou ali. Uma oportunidade de se abeirar do fim, e decidir. Sobre o que quis ser e lhe foi negado. Nenhuma revelação.
Concluiu:
– Pedras pesadas que a humanidade tem carregado sobre os ombros.
Súbito, um impulso subiu-lhe corpo acima, como lhe tremiam as pernas e a aflição no peito acelerado. Ouviu um sussurro que confirmava: o abismo é apenas ar. Então, inclinou-se, e sentiu tudo.
Era Maria, num sonho. Os evangelhos nunca o disseram. O peso que trazia na algibeira era o seu ventre. Muito virgem antes de o ser.
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foto de Babak Fatholahi

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