ascendência
O calor que fazia naquele dia de junho. A informação que ouvimos naquela manhã era de que a temperatura poderia subir acima dos 35 graus. A mim não me incomodava muito, mas tu sempre te queixaste, mesmo com calor que não fosse tão excessivo. O quanto te incomodava transpirar, invejando-me por não sofrer do mesmo.
– Como é possível não transpirares; não sentes este calor?
interrogavas, observando a minha pele lisa, comparada com a tua, gotejada por cada poro dilatado, enrubescendo-te as faces, a testa ainda mais húmida, e o teu farto cabelo que mais fazia aumentar o teu desconforto.
Eu nada lastimava. Não me incomodava a água que a tua pele transpirava como um orvalho quente sobre o teu corpo. Achava graça, como ao carmesim das tuas faces e, não sofrendo como tu perante o calor, estendia os teus cabelos para a minha almofada mimetizando outras formas de mim com o teu cabelo farto sobre a minha cabeça, ou no meu rosto. Brincando assim, sabia que te ajudava a aligeirar a temperatura da tua nuca, afastando o manto da tua melena.
Naquele dia, quase noite, tu tão lânguida ficaste deitada de lado na cama, frente ao ventilador e de costas para mim. Então, para não te abraçar e tornar-te ainda mais quente, sossegando o meu desejo por ti por te ver toda nua, fiquei só a observar-te naquela média contra-luz, com o quarto engolido pela sombra dos estores semi-cerrados, dando apenas uma ilusão de frescura. Mesmo assim, suficiente claridade do crepúsculo entrava para que vislumbrasse a silhueta do teu corpo.
Hesitando, fui insinuando percorrer cada curva tua apenas com a polpa dos meus dedos caso não viesse um murmúrio de queixume na tua voz arrastada
– Está tudo tão quente, amor
e, de vez em quando, espalmando suavemente a mão inteira no cheio das tuas nádegas, o ponto mais frio do teu corpo, carícia de que já não reclamavas. Ouvíamos piano pianíssimo por ser a única música que dava a sensação de maior frescura porque mais serena, embaladora a cada lenta batida dos martelinhos sobre as cordas tensas.
E dizias, ao escutar o piano
- Quase que adormeço
enquanto ia percebendo que do teu lado a humidade aumentava mais do que o suposto. Não transpirarias assim, não como se derretesses. Até que entendi melhor o quão húmida estava toda a cama: vinha das tuas pernas para baixo, alagando já o meu lado. Se o piano te deixava adormecer com tanta serenidade, o teu corpo, num repente, a contradizia, e tu deixaste aquela posição de costas. Contorcias-te: já não era do calor, nem sabias em que posição ficar: ora estendida com a enorme barriga para cima, de pernas abertas, ora em posição fetal virada para mim, com a tua voz queixando-se de uma outra razão
– Doi, está a doer-me
e percebi a urgência, sabia que era a hora.
Passaram quatro semanas desde então, estamos a mais de metade de julho, mês que supostamente se espera mais quente do que os anteriores. Para teu desconforto, ainda agosto está por chegar. Efectivamente, esta semana teve vários dias seguidos de temperatura também acima dos 30 graus. Porém, fiquei surpreso por ver como já não te incomoda tanto esta outra onda calor, ainda que a tua pele continue lambida por essas gotas tão parecidas com o orvalho.
Os teus seios fartos, inchados, gotejam também. Por tão fartos, por tão inchados. A cama já quase não deixa espaço para mim. Entre nós, o fruto do quanto transpiramos, nove meses antes, e com temperatura tão baixa. Tão baixa que a janela, ao contrário dos dias de calor, tinha os estores subidos com a intenção de que cada raio do sol daquele inverno pudesse ajudar-nos a aquecer. E aquecemos tanto que nos desfizemos num suor que em nada te incomodava, nessa tarde de finais de outubro.
Irá baixar a temperatura, meu amor. Virá depois de agosto, setembro, outubro – as folhas caindo – novembro, e outra vez dezembro, com o frio que admiras. Contaremos cada mês desde que saiu de ti, naquele quente dia de junho, esta menina que te mama. É o signo do quanto nos amamos ao concebê-la, e a esperança por que te amo cada vez mais.
A cabecinha entre o teu colo, cabelitos fartos e escuros que nunca vi em outros bebés, transpirada. Com os teus dedos, fazes por enxugá-los, ao mesmo tempo soprando suavemente os teus lábios para lhe aliviares o calor. O teu cabelo, esse manto que sempre admirei em ti, corrido de lado sobre o teu ombro para as costas.
Perante isto, estando eu de pé sem esforço por testemunhar tanta beleza, olhas para mim sorrindo e afirmas
– Sai a mim
enquanto eu, vendo os olhos da menina, o seu nariz, e ainda o feitio da boca mamando em ti, com a absoluta certeza de que a bebé tem muito dos meus traços, confirmo o que dizes, sorrindo-te
– Só a ti podia sair, meu amor!
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foto de Nataliya Jmerik

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