arbusto


A voz pigarreia-me, arranhada, seca. Os gestos imitam essa rouquidão – gagos, disléxicos, tropeçando em si mesmos. Sinto o sangue subir às faces num rubor violento, carmesim escaldante que incendeia o pudor e nada, aflito, desde a orla até à linha dos olhos. Pronunciar o teu nome ou esboçar um tímido olá tornou-se uma heresia física. A vontade move montanhas, sim, mas eu sou o próprio desastre: o ventre pesado da cerveja da véspera, a barba crescida por preguiça dos dias, a roupa amarrotada no corpo desleixado. Vale-me não exalar o odor azedo da labuta. Senão, seria a penúria completa.

Cento e um cigarros queimam à porta da comoção. A saliva atropela-se na garganta, o peito dispara sem meta, e os meus dedos tremem como folhas mortas, húmidas com o orvalho da exaltação. Estendo os dedos para ti, se te entendo como uma manhã nova, espelhada no fresco azul dos teus olhos, na seara perfumada a frutos dos teus cabelos – a manhã mais límpida que alguma vez desejei habitar. Mas a minha língua não sabe articular o acorde das palavras; faz-se papa na boca. Os lábios, capazes de ferver sobre os teus ou de se diluírem na tua pele com aroma a feno, fecham-se. Nenhum som nasce.

Nem lábios, nem gestos, nem nada em mim se move, excepto a palpitação surda e subterrânea no tórax. Nada em mim é capaz de resgatar o teu olhar. Quedo-me assim, um objeto patético na tua presença. E agora que te afastas, converto-me em árvore: plantado para sempre na minha própria sombra, um banco de jardim onde velhos colhem nostalgias, sugando da terra a seiva que me resta. Um vegetal ignorado.

Mas o mundo dará uma volta completa. E nessa altura, sim: bem composto, ex-fumador, recolhido e sedutor. Só para ter o luxo de te ignorar a ti, como a um arbusto que só incomodava a vista.


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foto gerada por IA - Gemini
simulação em Close-Up
105 mm f/2.8, Speed: 1/160s
ISO: 640

este texto fez verter um  poema por revisão reflexiva - ler em «aqui está o fruto»

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