madrugada de tédio

Não ouço o burburinho do mundo nem se propôs a luz para mapear a latitude onde me perdi. Disponho apenas do acre odor do bourbon inclinado em globo de vidro, a atiçar a boca e o gesto inacto da deglutição. E, inapto para carícias fora de contexto, deixo a minha mão direita repousar sobre a genitália. Sinto, porém, o movimento vagaroso dos ponteiros que assinalam, em jeito de abóboda celeste de noite sem lua, qualquer astro da madrugada que em finíssima porcelana se esconde, num risco do céu.
Madrugada a confinar energias, enquanto uma mosca solitária zumbe uma triste declaração de guerra ao silêncio por mim desejado. Assustada de escuridão, com argumentos compulsivos de angústia. Não tem a boca humana para bocejar ou vociferar. Vai apagar-se por distração do fôlego na procura desenfreada de liberdade, na taquicardia minúscula de insecto. O pânico irá findar-lhe por síncope, se não antes uma providente teia e sua tecelã se emanciparem ao enredo.
Não vieram os teus lábios que me beijassem, os teus mamilos para mordê-los em desespero de desejo. Esse par de olhos para que houvesse a absolvição da saudade. Arrumado de braços e antebraços sobre o tampo da mesa, salivo um poema com a alma no chão, poema escrito em língua nenhuma
carne e osso
mapa desfeito entre os dedos
um pulso cego
onde latejam sílabas
sem saliva alguma
só o deserto
um vazio mordido
a cuspir a língua
do copo a ceder sem ti
nenhuma coragem
só areia e osso
só vidro onde me naufrago
pela tua ausência
com o sal ocre do chão
É como se fosse a sorte grande dos ignorantes que aceitam tudo por falta de noção do que é a resiliência. Da consciência que se pode fazer sempre algo mais do que simplesmente deixar-se ir com a maré. É por isso que me sinto sedimentar como a areia. Estou nessa hesitação de mar cliché a enrolar a ondulação. Vou e venho.
Os acenos nas praias são para que possamos despedir-nos dos náufragos que não vimos, e como engoliram a tonelada de água que os levou para lá e para o fundo. Então, se apenas me acenas, quer isso dizer que sabes do meu naufrágio e somente acendes uma vela, como farol a mapear o meu nunca encontro com o que foi.
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foto da modelo Aneli Poppea
autor não identificado
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