nenhuma geografia
Infelizmente, e apesar de tudo, tenho de despedir-me de ti. Reparei que, afinal, o horizonte teve sempre aquela cor gris. Não a cor que vi em ti, a que insisti ver tanto até que os meus olhos pudessem inventar, iludidos, todo um novo espectro, entusiasmados para nos mostrar
(só a ti e a mim)
uma outra cor nunca vista. Lamento a ilusão, como lamento que o espectro não possa ter cores novas. Pelo menos uma cor parecida com a qual eu via um futuro contigo.
Volto costas, desiludido e desarmado. Vou pelo caminho de sempre, antes de ti. Dirão que opto pelo mais fácil, o caminho já traçado de sempre, desistido a uma maldição, mas eu não acredito em traços
(apesar de ter acreditado nos traços do teu rosto, nas tão femininas curvas do teu corpo)
nem em maldições. Eu só acredito nas escolhas que se fazem, as possíveis. Esta é a que tenho. Não por ser fácil nem cedendo a má fortuna. Apenas retomar o cruzamento por onde tomei o caminho que, agora sei, foi errado. Também acredito que nunca é tarde para renovar, mesmo dando um ou dois passos atrás.
Assim, feitas as minhas opções, e vendo o espectro real para o qual despertei, sigo em frente apenas recordando como tudo começou
(enjeito qualquer lembrança por que tudo acabou)
como as papoilas encarnadas, sinal do teu regaço quando te fazia arder os desejos reprimidos. Tão único o nosso primeiro encontro, memória que sempre guardei com ternura. O feno alto pronto a secar, ervas bravias crescidas com orgulho, as papoilas ali perto de nós, balançando não ao sabor de qualquer vento ou brisa, apenas com o estocar do meu corpo contra o teu, e o hálito das nossas bocas sôfregas
(seja talvez afinal a única memória que levo de ti).
Neste retomado caminho, faço da lembrança do pão que me deste na boca como quem, sem qualquer côdea, engana a fome. Parece que ainda sinto aquele aroma do pão que me davas, acabado de sair do teu forno. Sei que não sobraram migalhas, porque também já não há saudade. Ameniza com o tempo, esse cruel relógio de dias, noites e madrugadas, que tudo deixa para trás quando o acentuado revirar dos olhos é sinal de não haver possibilidade de reatar. Não lembro com saudade, só guardo memórias com ternura – insisto.
Sigo o chão estéril que foi sempre o meu, esquecendo a erva alta onde nos encontramos pela primeira vez, e o feno-perfume da tua pele, tão aflita, sempre tão aflita. Também do encarnado da tua vulva a latejar por tanto querer-me, o sangue fervilhando entre o romantismo dos amantes e o medo das dúvidas,
o chão,
o chão do qual quase foste capaz de me levantar, porém… foi desse chão que me tiraste dos pés, transformada numa mulher diferente da que eu julgava conhecer.
As ervas declinaram, o pó surge aos poucos, cobre os meus sapatos de sede, enquanto o sol perdurar. Sei que virá o crepúsculo
(virão mais tarde as chuvas e as sombras, também)
e o teu primeiro beijo será a única recordação que não ganhará bolor ou porosidade, impossível à erosão do tempo, assim como aquele teu olhar, das primeiras vezes, tão tímido e desconfiado como os olhos do esquilo na procura das nozes.
Volvo, pois, ao meu chão. Sem verdura alguma, só o pó, como o do cinzeiro que enchi nas madrugadas insones a pensar
(a ponderar como podia resolver entre o que fomos e o que somos hoje, e a resolução foi esta)
que, infelizmente, já nenhuma geografia existe no mundo onde possamos ser os dois plenamente.
Portanto, não me acenes. Na fúria da despedida, esmaguei um punhado de pétalas de papoila e encenei sangue na camisa manchada – sangue colhido para o dramatismo que tanto gostas de representar agora, algo de que não sei discernir a razão.
Fui. Fui de ti e do que não chegamos a ser, apesar de tantos anos. Não me acenes, portanto. Se já estou de costas voltadas, para que serve um aceno?
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foto de Oleg Kazakov

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