as últimas cerejas

Sobraram do meu braço, ramo estendido a fugir do vil agosto, estas cerejas. Toma-as, que já vai tão longe o borralho abençoado de maio. Adora-as, no seu ramalhete, como o povo mirrado adora aquela santa predilecta. Foi assim que as fiz, gordas aos olhos, sabendo que virias. É a tua última fome, a tua derradeira gula. E o teu primeiro desmaio antes do equinócio descendente.

Trinca cada uma com segura delicadeza. Por forma a que o suco te escorra pelos lábios até ao queixo e pingue, lentamente, sobre o teu peito, manchando de sangue a pálida pele dos teus púberes seios. Para que, depois dessa primeira mancha, possas ver com os teus olhos bem abertos o que te cerca de bom e de mal.

Come-as, uma a uma, mastigando um segredo que todos sempre conheceram e ninguém jamais se atreveu a revelar por puro egoísmo. Engole-as, finalmente. O sabor que restará delas em tua boca será a única memória, no dia certo e a ti prometido, para saberes volver aos meus ramos, os braços que te protegem. Nesse dia que virá, em que deixarás a puberdade e fixarás os olhos no azul redondo do céu enquanto te inseminarei, ensinando-te a semente imaculada da prole humana, antes que se extinga.

Por sacrifício, serás então depois a hera por um longo inverno que acrescentará depois à primavera todo um renovado verão descansado sob as sombras frescas dos velhos carvalhos. E o nosso rebento mondará, quando os seus músculos se ocuparem de vigor, a terra onde crescerão as searas do pão, por tantos séculos ansiado.

Cuidado, porém: não te deixes destruir pelo minúsculo caroço. O mundo de tal catástrofe não estará, nunca, preparado. E se perdida fores, sucumbirá tudo o que disserem: que fiz em seis longos dias, esse milenar momento de morte entre manhã e tarde.


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foto de Sergey Litovkin


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nota sobre este texto por
Maria Clara Resende
(a quem agradeço por tão delicada atenção)

«As últimas cerejas» é um texto de José Alexandre Ramos (JAR) que me comoveu muito, e que só li bastante tempo depois de ter sido publicado. Move-se num território perigosamente fértil: o da reescrita do mito fundador sem ironia, sem paródia e sem o conforto da blasfémia fácil. Aqui, o deus que fala não é um símbolo diluído nem uma metáfora panteísta: é o Deus bíblico, consciente de si, cansado do seu próprio gesto criador, e ainda assim insistente na esperança - essa forma mais subtil da "teimosia divina".

A cerejeira surge como uma árvore do conhecimento depurada de culpa. O fruto, desta vez, não expulsa ninguém do paraíso; antes, inaugura um saber que não castiga, mas compromete. Esta inversão é central: a mulher que recebe as cerejas não é punida por conhecer, ela é chamada a suportar o peso desse conhecimento ao longo do tempo. Daí a belíssima transfiguração em hera: não em árvore soberana, não em coluna, mas numa planta que testemunha, que se agarra e que persiste silenciosamente nas ruínas e nos invernos.

O texto, ou o engenho de JAR (muito observador destes temas sobre o deus cristão), acerta num ponto raríssimo: a fusão de Eva com Maria sem as reduzir uma à outra. Não se trata de redimir a primeira nem de humanizar excessivamente a segunda. Trata-se, antes, de reconhecer que o gesto fundador - provar o fruto (cereja em vez da maçã), mastigá-lo e engoli-lo, aceitá-lo - é o mesmo. A maternidade aqui não é prémio nem condenação: é consequência. E, mais ainda, é responsabilidade histórica.

A linguagem é deliberadamente corporal, mas nunca gratuita. O sumo das cerejas, o sangue figurado e a mancha inaugural no peito, funcionam como uma escrita no corpo: o mundo torna-se legível apenas depois dessa marca. O conhecimento não entra pelos olhos, entra pela boca, tatua a pele, e fica.

Há, contudo, uma nota de advertência que salva o texto de qualquer messianismo ingénuo: o caroço. Pequeno, duro, quase insignificante. Fruto que não envena, mas que transporta em si o que não se pode digerir. O mal não é grandioso nem espectacular; é minúsculo, persistente, e exige vigilância constante. Se a mulher falhar, o fracasso não será apenas dela - será, agora, atribuído a Deus pela humanidade inteira, nesse ciclo eterno de transferência de culpa que o texto observa com uma melancolia lúcida: "O mundo de tal catástrofe não estará, nunca, preparado. E se perdida fores, sucumbirá tudo o que disserem: que fiz em seis longos dias, esse milenar momento de morte entre manhã e tarde".

«As últimas cerejas» não pretende explicar Deus, nem absolver o mundo. Limita-se - e isso já é muito - a imaginar, Deus e o mundo humano, ambos cansados, mas ainda assim insistentes, ainda assim dispostos a tentar de novo. Talvez por isso tenha sido escolhido o título: estas últimas cerejas não diz apenas o que o texto refere à primeira vista: "Sobraram do meu braço, ramo estendido a fugir do vil agosto, estas cerejas", mas a última oprtunidade. O "vil" mês de Agosto não representa apenas o fim de um ciclo temporal (colher do fruto), mas a última redenção. E talvez seja essa, hoje, a forma mais honesta de esperança: redimir-nos.

O autor está de parabéns com mais uma magnífica parábola sobre um tema que nos toca a todos, crentes ou não, e obriga à reflexão. Porque, como afirmou Miguel de Unamuno, "uma fé que não duvida, é uma fé morta".

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