primeira vez?


– Diz-me em que estás a pensar

ouvi de ti, enquanto me remexia na cadeira, ridiculamente imperfeita para qualquer conforto de quem nela se sentasse. Perguntei-te, entre o estrebucho das nádegas e do lombo mal acomodados:

– Aguentas o medo? Ou já te resignaste a viver os dias como eles chegam, repetidos uns nos outros? Os dias gostam de acreditar que são seguros quando seguem os mesmos carris. Repetem-se. Acumulam-se. Fazem sombra até nas manhãs em que o sol parece demasiado grande para consentir escuridão. E, contudo, vencem quase sempre.

olhei-te melhor e quis saber

– E tu? Em que pensas para lá do que mostras? Há em ti esse desapontamento de quem percebe que a vida nem sempre se alimenta de maravilhas, a estrugir desinteressadamente o jantar das jornadas para que valha o alimento a sustentar forças do dia seguinte, antes dos roncos e admoestações da madrugada. Rotinas que nos inclinam para baixo. Rotinas que talvez já não queres.

sorriste, mas não para mim

– Dizes clichés.
– Talvez.
– Mas a verdade é que andamos todos obcecados com os mesmos lugares-comuns. Como se fôssemos iguais. E não somos.

fizeste uma pausa

– Hoje acordei com uma ideia a perseguir-me. Não sei se é mais importante amar ou sentir-me amada. Parece uma pergunta simples, mas ficou dentro de mim como o rumor do mar dentro de um búzio. Sabes que não é o mar. Mas ouves qualquer coisa.

olhaste pela janela

– Acordei inteira. Corpo e emoção. Ainda assim, havia um sabor amargo na manhã. O de me sentir só. Não essa solidão de não haver ninguém por perto. Outra. A de existir sem ser verdadeiramente alcançada.

seguiu-se um diálogo não previsto. Como se fôssemos duas pessoas acabadas de conhecer, livres de tudo o que já sabíamos um do outro. Então disseste

– Ontem à noite entornei vinho sobre a toalha de linho da sala.
– Grave tragédia doméstica.
– Não brinques.

ri-me

– Continua.
– Fiquei a olhar para a mancha. Aquele vermelho espalhado sobre o branco. E ocorreu-me uma ideia absurda.
– Qual?
– Que era assim que o meu coração deixaria marca no mundo, se pudesse sangrar para fora de si.

aqui já não me ri

– Talvez seja para isso que servem as manchas. Para nos lembrarem de que alguma coisa aconteceu.
– Foi o que pensei.
– E o vinho?
– O vinho era só vinho.
– Não. O vinho era outra coisa.
– Que outra coisa?
– Era aquilo que ainda não aconteceu. Os gestos que ainda não demos. As palavras que ainda não encontrámos. A parte de nós que continua à espera.

olhaste-me finalmente

– Estava precisamente a pensar nisso. Nessa urgência.

demorei alguns segundos antes de perguntar

– E o que te diz essa urgência?
– Que há coisas que reconhecemos antes de as compreender. Como uma luz. Não a que vemos, outra. A primeira, talvez.
– A do nascimento?
– Não, essa pertence-nos demasiado para a podermos recordar. Falo de outra coisa: da fome. A verdadeira. Aquela que aparece antes das explicações, antes dos nomes, antes das certezas. O teu corpo desperta em mim essa fome. Não apenas de ti, mas de presença, de descoberta, de realidade.

reflecti

– É por isso que parece uma primeira vez?
– Exactamente.
– Mesmo quando não é?
– Sobretudo quando não é.

o sol já tinha começado a descer quando disseste, quase para ti mesma:

– Talvez seja isso que guia os nossos dias. A possibilidade de encontrar de novo aquilo que julgávamos conhecer.

e foi então que percebi porque não nos enganámos nas vezes seguintes.


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foto de Sergey Oslopov

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