âncora
Não encontrarás ninguém verdadeiramente seguro – em terra, na costa ou em alto-mar, sem uma âncora. É ela que segura a embarcação quando tudo o resto parece mover-se. Só se lança a âncora quando se acredita, por instantes, que ali existe abrigo.
Faz-te de nau: prende-te onde sentires alguma salvação, para depois poderes seguir o rumo que desejas.
Mas as certezas são traiçoeiras. Os azimutes também. Sabemo-lo todos. Mudam como muda a ideia da verdade quando o tempo passa ou a tempestade ameaça, desaba e se desvanece. Por isso, a âncora de que falo vive sempre entre a dúvida e a necessidade desesperada de acreditar que existe um chão – submerso ou não – onde os meus pés consigam reconhecer um caminho.
Então, só me resta perguntar:
– És tu a minha âncora? Conseguirás resistir aos fundos limosos, às correntes contraditórias,
(da água, do vento)
caprichosas e traiçoeiras? Não acabarás também por ceder, lentamente, à erosão das cordas que te seguram,
(com a água, com o vento)
gastas pelo tempo que tudo corrói?
Terás força para me prender a esse fundo que quero acreditar firme?
Se a resposta for não, então junta-te à longa lista dos falhados, dos para mim são inúteis porque se deixaram flutuar no mundano – ao qual nunca quis pertencer. Nesse caso, serás apenas mais um horizonte distante: algo para onde se olha durante algum tempo antes do virar das velas, quando a penumbra cai. E, se assim for, não me procures depois: o navio que sou quis outro porto.
Ou, noutra alegoria, sabes que não pertenço ao cais daquele que desembarca sem a festiva saudação de quem o espera. Se não fores um desses, ou sequer o ferro capaz de me prender ao fundo, melhor que eu continue à deriva, e sem desembarcar. Prefiro o risco do naufrágio em mar alto ao fingimento de acreditar que estou seguro junto da tua incógnita margem.
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foto de Anna Volynskaia

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