queda intensa do ruído
remoendo o silêncio da madrugada
nunca um silêncio absoluto
apenas queda intensa do ruído
diluído no rumor da distância
no latido de um cão mais próximo
enfurecido pelo faro das sombras
latindo como gente
latindo como alguém que tosse
enrodilhando lençol entre pernas e pescoço
viras-te para o outro lado retomando o sono
a articulação da cama: três estalidos ligeiros
para outra vez o silêncio
outra vez a queda intensa do ruído
mais próximo
outro cão lá mais longe
intrigado pelo mesmo faro das sombras
e um burburinho do asfalto a fazer acorde.
Um cigarro entre os dois dedos:
puxas a fumaça
ouves o tabaco crepitando
na sua condição de brasa minúscula
as tuas mãos e dedos mimetizam
uma ligeira discussão
encenada no teu pensamento.
Entretanto
os segundos no relógio sem parar
um motor em modesta rotação na rua
e o rumor impreciso de máquinas mais distante
o vizinho que produz uma pancada
um frigorífico que abre
a descarga de um autoclismo
sons que habitam estes meio silêncios
na rotação do planeta na sua órbita
encontras o caminho do sono
na lonjura do pensamento que divaga
uma vez que
vez que
que
adormeces
no remoinho dos segundos
em infinita espiral.

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