descompasso


Pensas que, apesar da esmola sentimental dos que te rodeiam, tenha chegado o tempo de deixar de mendigar atenção. Os espelhos estão numa atitude de recuo: aproximas-te do reflexo e a imagem de ti distancia-se. Acontece muito devagar, mas já deste conta. O mesmo vagar com que cresce a folha imberbe do rebento para dar lugar àquele recorte magnífico da ramagem. Já deste conta: são uns milímetros cada dia em que a imagem que tens de ti se distancia daquela que vês, cada manhã, no espelho.

E, contudo, à tua volta parece-te que ninguém mudou em meses, em anos. Pareces ser o único em constante transformação, quem mais declina perante a aparente uniformidade alheia. Psicologia barata: não vês os anos passando neles, mas quanto a ti, mesmo que lentamente, dás conta da tua velhice, que aborrece o cliché do sempre eterno jovem de espírito.

Então, rejeitas os lamentos e as penas, muito mais a misericórdia – dos outros e da auto-infligida. Soubeste que os lobos se isolam da matilha para ir morrer longe. Enquanto não morre, o velho lobo, cumprido da sua missão, vai desejando a morte por todas e quaisquer razões. Não tem espelhos o lobo – senão o velho lugar-comum das águas paradas de um riacho sob o luar onde vai saciar a sede – mas tem o apurado olfacto. Que mede bem aquela mesma distância. Que aquilo que foi se distancia daquilo que agora é. Enquanto todo o bosque parece permanecer intacto.

Predadores fartos dão-lhe esmola, também, quando o lobo já sem forças nas patas para correr sobre as corças, e suas mandíbulas demasiadamente frouxas para rasgar a carne ainda fresca. Essoutros predadores enchem-se de uma curiosa misericórdia, a que lhes dá enjoo do faro pelo sangue e do estômago dilatado de tão cheio. Deixam então o resto da caça ainda não totalmente carcaça. Para o velho solitário também poder alimentar-se. Enquanto espera a morte.

Este isolamento não é apenas um fim, mas a aceitação de que o ciclo se deve cumprir sem ruído. É o momento de parar, deixando que a natureza retome o que é seu por direito. Argumentar que o gelo e a terra, um dia, comungarão. Nesta entrega, compreendes finalmente que a terra é uma mulher que espera, sossegadamente, que o seu macho aqueça e se derreta completamente, vencido pelos seus gestos de acolhimento e sedução. Resta-te, diferente do velho lobo, ter a fortuna de uma fêmea com tal dedicação.

Senão, o fogo é capaz de tudo. A fossilização é uma outra opção para a combustão: se te não imolares natural e instantaneamente quando caíres no negro cego, combustível serás um dia. E hão-de ser bonitas as tuas labaredas, como as cores do crepúsculo.


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(foto de autor desconhecido)

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