minha fé
Um dia, sei que conseguirei dar-te o melhor. Fazer com que aumentes a sabedoria que tens adquirida ao sabor do vento da tua juventude, permitindo que aprendas mais na bonança do teu espírito.
Qualquer dia, o desacreditado em que me tornei terá o prazer renovado de te ensinar como o mundo é tão belo e como a defeituosa humanidade, em muitos instantes da sua milenar existência, conseguiu realizar tanto do mais belo – o belo que havia de ser a sua única definição. Isto é: dizer humanidade e dizer beleza seria cantar quem somos entre sinónimos.
Raro o mundo que idealizamos, rara a humanidade que desejamos ser. Porém, fora artes divinas que não compreendo ou não sei aceitar, a beleza persiste, ainda resiste. E isso é o devir, o móbile para que possa progredir a humanidade rumo ao ideal que traçou.
Deixei de ter esperança pelo geral, pela globalidade. Houvesse antes um outro dilúvio que as lendas judaico-cristãs conferem. Limpar a iniquidade e salvar os que ainda estão em condições de regressar à pureza inicial, o ideal da criatura cósmica que decidiu separar a terra das águas, a penumbra da luz.
Quem sabe, se tais lendárias ou bíblicas sentenças se concretizarem, não possas ser tu elegível para o perdão final? Imaginando isso, acontecendo o fim do todo que conhecemos, eu ficaria feliz pela tua salvação. Da tua retirada gloriosa deste caos para a perfeição.
Nada importaria por mim, mesmo que caindo entre os mais baixos dos anéis de Dante quando reflectiu sobre o inferno dos homens. Não sou eu que preciso de esperança se em nada acredito, sequer na humanidade. Porém, acredito em ti. Que possas estar entre os escolhidos para a ficcional nave da salvação.
Eu posso ficar por aqui, esperando o sol rebentar e morrer. Ou, antes disso, a lua colidindo contra a mãe terra, desorientada da lei física que sempre a fez orbitar. Ficaria satisfeito por saber que um pedaço de mim a ti dado, pudesse, por séculos e no imenso espaço, perdurar na história futura, sendo tu a semente que carregaria o que sou. Da mínima resiliência humana que tem feito de mim um odiado entre crentes da fé vigente, mas também nos pagãos.
E feliz, esperando o meu destino para o pó das estrelas, com a certeza de que também contigo aprendi, no último momento, a ser um humano com mais esperança. Só peço isto: que me digas do céu o caminho que a nave onde vais traçará, ou onde poderei ver o navio que navegará sobre a tormenta das águas. Diz-me, faz-me um sinal, pois eu, sufocando sem ar na atmosfera ou sob o dilúvio, poderei discernir que consegui qualquer coisa para o futuro. Nesse instante, tirarei do bolso um premeditado lenço branco para que saibas que sou eu a despedir-me de ti e do mundo.
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foto de Ekrem Shahin

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