sonho sobre asas


Um dia destes, qualquer que seja. Pinte-se o mundo da cor que quiser. Ainda que morram as árvores e sequem as águas dos rios. Ou que haja imensa flor de primavera e areias quentes de singulares verões. Mesmo que soprem medonhos ventos e cada planície seja varrida por imensuráveis chuvas. Ou se amem as pessoas como nunca milagre algum, a existir redenção plena perante a face de um deus que se exiba, a exclamar, na sua voz de trovão,

- Podeis agora acreditar?!

Seja lá como for, aqui estarei. Esperando-te para me ensinares a voar da maneira como voas. Conhecer o segredo dessa coragem de não saber o peso da idade, da ideia do finito; e deixar-me da convicção, resignada, de que quase nada vale a pena.

Aprender contigo como se olha verdadeiramente em frente, sem qualquer medo ao horizonte que me desafia e sem haver nostalgia do que foi bom, mas já passou. Que, afinal, o bom sempre pode permanecer e conviver com o mau, embora possa o mundo insistir por fazer com que duvide.

Quero sentir o ar rompido pelos meus dedos esticados, pelo meu nariz, soprado nos meus olhos que hão-de resistir até às lágrimas. E saber, na guia do voo das tuas asas miraculosas, que há tanto céu e um alto tão lá longe de tudo onde poderei, por fim, abraçar o mundo completamente, seja ele merecedor ou não.

Gritar como as aves. E amar mais. Amar tanto que ninguém mais poderá saber o quanto se pode sentir o inequívoco amor. Sem dizer que sonho, sem abreviá-lo com um «no entanto» ou um «sequer». Sem qualquer mas, sem se, nem porquê. Apenas abrir asas e largar, confiante, na certeza de que os sonhos podem realizar-se desde que eu aprenda, com toda a minúcia, a abrir bem os braços e proferir – talvez com voz de trovão:

- Eu tenho asas!

Isto. Só isto. Um dia destes, ensinas-me? Que promessas podes dar-me?


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foto de Arti Vladi

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