nem a morte
Madrugada com chuva e trovoada. Sabes do que tenho vontade? Exumar um corpo sem vida para exorcizar uma solidão nunca premeditada pela morte. Companhia de um morto-vivo para uma vida moribunda. Querias um poema? Eu também, escrever no caderno de capas negras um poema palavroso e cantante, intenso como corre o sangue. Palavras que só um bêbedo como eu proferiria, inconsciente dessa desinibição. Há aqui paredes com ouvidos. Não só as que escutam o íntimo e inusitado diálogo de um casal que lamenta a rotina para logo exumar o amor cadavérico com as estocadas repetidas da madeira da cama contra o chão – tal qual o coveiro com a sua pá, ora escondendo, ora desenterrando. Nestas paredes ouvem-se também as dores da argamassa que nos engole na sombra sem a luz que define o estio. Sei que nada posso, e até posso fingir-me de morto. Mas não serei carne para que venhas a saciar a tua fome de abutre. Se queres o que sobrou de outras lutas, não o encontrarás em mim. Verás, ao alvorecer, como me transfiguro: tornado em pássaro do norte, o meu bico nunca carne alguma rasgará, apenas colherá as sementes das searas maduras. Prefiro o ramo alto, observando o cereal que cresce, em vez do verso palavroso e já morto de um poema que a chuva da madrugada desfaz.

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