entrelinhas
Sucede que no braço um garrote, numa mão uma agulha, na outra uma liquidez ácida e fervilhante como a estrela mais digna – daquelas cujo nome serve de argumento à primeira lauda da humanidade entre bestas –, o lírio a crescer nos campos, os dentes-de-leão, e as papoilas como gotas de sangue que sempre me comoveram. Uma ave perdida pela sua própria estridência no imenso azul, a parede que volteia em pó e mosquitos, e uma borboleta de aparente casualidade. Um gato a espreitar sossegado pelo sol, os muros ao longe largando-se da cal com verdete, um dedo amarelecido na mão daquela mulher por conta de consecutivos cigarros, esmagando o tesão dos homens que lhe pagam com o hálito da sua boca fétida por consecutivos cinzeiros. A música a diluir-se nos ouvidos que já não a sustentam, o murmúrio lento dos lábios até se render ao silêncio com ligeiros espasmos da boca à banda, o copo para arrefecer sempre que surja a sede. Sucede que a agulha abandonou a veia, lasso ficou o garrote e a cabeça esquecendo de dizer qualquer coisa como entrelinhas e, num repente temeroso de sentir toda a gente assistindo e alertando que não, não faças isso, eis-me a apelar, de mão estendida a fazer sombra ao sol que me viola os olhos: sou culpado, mas deixai-me em paz.
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(foto de autor desconhecido)

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