os domingos sem voz II


Necessito alguém, de uma palavra sua. Isto é: algo mais que isso, pois um simples aceno pode valer mais do que uma única palavra. Como, por exemplo: quem que me acena do outro lado da rua com a mão e continuar andando. Que é como exclamar, acrescentando ao gesto de aceno, um

- Olá!

e seguir em silêncio enquanto se afasta.

Portanto, precisar de alguém que me dê uma palavra é uma forma de dizer, exprimindo o que se sabe, do «dar uma palavrinha», também se diz. Quero mais, entabular uma conversa, abordar assuntos menos mundanos. Sem ser só um gesto de boa educação, num cumprimento de cortesia social.

Aos domingos, esta minha necessidade de ser abordado por alguém é mais grave e mais silenciosa, ingrata, malograda. Aos domingos, sempre mais só – se não quiser defender a companhia da música, já que é tão inerente a mim; onde sou, ela está. Pudera assim ser com a maioria das pessoas, aos domingos.

De maneira que, sem a tal palavra ou palavrinha que gostaria que alguém quisesse dar-me, não variam os domingos da monotonia de olhar pela janela a rua parada, o pó na escadaria, as árvores e arbustos dormitando, incomodados de vez em quando pela passagem de um carro na estrada.

Que não há quem me aborde e me deseje, alguém que queira saber mais do que sou, de como sou, que valia ou menos-valia possa eu ter na sua vida. Um novo amigo

(sempre quis)

ombro e ouvido para confidências

(sempre disponível)

um amante

(desejo quase sempre constante, com intermitências e reticências)

ou talvez tudo ao mesmo tempo – um cliché.

Enfim. Alguém que, quem quer que seja, venha dizer-me:

- Essa canção arrepia-me, que outras tens?

ou

- Li e adorei, que mais escreves?

ou

- É um bom livro esse, conheces este? Vamos aprender livros novos um com o outro?

ou

- Às nove da noite em minha casa? Preciso de ti.

Mas é apenas domingo onde nenhum improvável deste calibre acontece. No meu mundo, os domingos são assim, monótonos e sem voz. Sem vozes. Sem gestos. Sequer vejo alguém do outro lado da rua, a levantar um breve aceno por me reconhecer ou por curiosa empatia.

Afinal, dando o braço a torcer, com tanta monotonia, talvez um domingo sem voz pudesse ser muito diferente de todos os outros se ainda tivesse alguém que

(por me reconhecer ou por curiosa empatia)

me dirigisse um ligeiro

- Olá!

Sabe-se lá quando uma simples palavra já só basta para fazer a diferença. Como quem dá um empurrão. Não havendo isso, resta-me deitar a tarde a dormir. Amanhã, segunda-feira, virá a azáfama contraditória, por ser dia frustrante e de ainda muito sono. Dia de tantos acenos e cumprimentos

- Bom dia! Boa semana!

coisa que, alguém como eu, desiludido com as pessoas destes domingos sem voz, prescinde.


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foto de Pietrzak Łukasz

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