socialmente correcto
É sempre tudo muito bonito: todos sorriem ou choram com hora marcada. Identificam-se por conveniência, e repudiam com a fúria dos justos. É o reino do socialmente correcto, onde até a indignação parece passada por um filtro de estética. Porém, nada mais é que o nada multiplicado por mil vezes todos os nadas que identifico. E, dos que me rodeiam nessa virtualidade, nenhum ouvido, nenhum olhar a sério perante o que eu digo e partilho. Quem me escuta realmente? Quem consegue ver-me através do brilho azulado do ecrã egoísta? Só há umbigos virados para dentro?
Impera o quero-lá-saber-desde-que-me-vejam. Um social-pedantismo, alimentado a likes torna-razão, perante a solidão dos que, no fundo, don’t give a fuck. E eu, num whatever resignado, acabo por me juntar a esses que apenas sacodem a cabeça e deixam um desinteressado keep it on em vernáculo da nossa própria colonização mental.
Mas… que máquina é esta? Que algoritmo me configura perante os outros e ao qual acabo por ceder, nem que seja pelo conforto de não ser excluído? Que inteligência, artificial e articulada, e que umbigo digital o determina? Tudo é maravilhosamente enganador. A publicidade já não vende apenas produtos. Vende a nossa própria vulnerabilidade encenada. Não se incomoda com a verdade: se o que consumimos tem toxinas, disfarçam-se com cores pastéis; se os produtos nos causam cancro, criam-se avisos de bem-estar para descomplicar denúncias e lavar consciências ecológicas.
A máquina aprendeu a capitalizar até os escombros. Vendem-se rostos: os de perfil e inibidos, os públicos, e até a dor dos que ficaram sem nada. A tragédia de hoje é o entretenimento de amanhã, servida em doses de sessenta segundos. Tanta determinação quanta insegurança. Destroem-se conceitos para alimentar preconceitos de estimação. Mentiras tornadas em verdade absoluta antes que o minuto acabe. O hoje já nem é o de amanhã; o agora é um cadáver que ficou no minuto anterior, porque o segundo seguinte já reclama a nossa atenção com uma nova futilidade. Nada tem importância, excepto a próxima notificação.
Assim se fazem os rebanhos, e só assim se instalam os seus muito influentes pastores – esses que ditam o que devemos sentir entre o pequeno-almoço e o jantar. Pastagens há muitas para se alimentarem tantas ovelhas, anhos, carneiros, cabrestos, touros enfurecidos e vacas de sino. Sinto-me, cada vez mais, a ovelha ronhosa entre o rebanho formatado. Nem sou de ruminar qualquer erva, orientado pelo interesse de quem maneja o cajado digital. E de ervas, enfim… incomodam-me as doces, ou as totalmente desenxabidas, se são para agradar a todos.
Eu prefiro as agridoces, ruminando a verdade dos factos, a que realmente morde mas agrada, mesmo que possa sofrer eu – gado como os demais (ninguém é imune à rede) – dessas perigosas investidas que acabam em disenterias e demais desafogos gástricos. Por mim, se tais desafogos não sejam os da alma, e desde que o meu olhar ainda consiga ver para além do vidro do ecrã, tudo bem.
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(foto de autor desconhecido)

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