tu meu povo, fulgor de mil sóis
o vento principia num sussurro que abrasa as têmporas, mas célere se agiganta, denso e telúrico, enquanto arautos da voz urgente proclamam quanto o prodígio se avizinha
a turba, em sobressalto magnético, suspende o fôlego perante a génese de um mundo que se transmuta, urdido na sede de um hino virginal, clarão de uma luz que rasga o firmamento com o fulgor de mil sóis
por fora pão por dentro fogaça, que este clarão é máscara de um deus irado, um ídolo de pés de barro que o povo adora no seu niilismo mais cego
e seus anjos, em coro de cristal, segredam que este novo senhor transporta nos ombros um reino ignoto, e esses mesmos anjos, mandados da corte desse déspota celeste, hão-de cair pesadamente sobre a terra
um alvoroço profano que faz do mundo a sua taberna, das gentes o seu gado: sujeitaram os homens à escravidão da alma e subjugaram as mulheres num abraço de ferro e luxúria sexual desenfreada, para que dos seus ventres violados nasça uma prole de super-humanos
não o além-homem que dança, só monstros de força bruta que acorrentam a vida, que é como quem diz: quem se mistura com porcos farelo come, e esta corte divina que chafurda na lama da tirania anuncia à multidão exausta uma alvorada perpétua, um sol sem alquimia que se estilhaça em mil arco-íris de estilhaço
o povo irado percebe que afinal não há mal que cem anos dure, pelo que avança contra este deus teimando em subjugar o devir a uma ordem estática; ergue-se então o grito da humanidade que já não quer rastejar, partícula sagrada despojada da ira submissa que escuta o bramido dos oceanos
tu, meu povo, faz voz à potência que ruge em tuas veias, onde dantes havia lúgubres orações; agora cravam-se cruzes de pedra em solo druídico, invocando os deuses pagãos, não para adoração, mas como armas de um grito contra a semítica-nova-ordem-de-sião que teima em comandar
uma nuvem de brancura absoluta envolve-te em segredo, não para te levar ao céu, mas para te revelar um mundo redesenhado pelo teu próprio punho; ouves as cornetas de oiro a dilacerar o silêncio, mas já não tocam para o senhor: anunciam que a batalha final contra a transcendência opressora principiou
porque em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, a fome reclama pela terra, e perante o corpo sem nada, nem o mais ínfimo grão de areia poderá permanecer imóvel face a esse martelo e foice que estilhaça os ídolos
tu, meu povo, transfigurado pela glória do fogo que queima as velhas tábuas da lei, nunca mais serás o mesmo ser que ontem rastejava no pó: serás o senhor de ti mesmo, o riso que enterra os deuses e a mão que escreve o seu próprio destino; e dirás de punho erguido que o que foi é para nunca mais.
(foto de autor desconhecido)

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