quanto nada


- O que tens para me dar?
- Quanto queiras.
- Quantidade não sei, nem exigir.
- Quis dizer… o quanto queiras e na qualidade que desejas. Vá, diz-me o que queres, e te dou.
- Não serias capaz.
- Não seria? De que duvidas?
- Dar tudo em qualidade e quantidade que o outro deseja creio que esteja fora do alcance de qualquer um.
- Não serias capaz disso, se eu to pedisse assim?
- Não, definitivamente. Ninguém consegue dar nada a alguém com cem por cento de qualidade e quantidade.

ela olha para ele com um sorriso desfasado

- Cem por cento? Não me faças rir… é o mesmo que dizer com perfeição. Nisso também não acredito.

e suspira

- Enfim… eu…

cala-se por instantes, correndo o indicador pelo ecrã do telemóvel, e acaba abstraída; ele insiste, para que a conversa não acabe naquela abstracção

- Tu o quê?
- Bem, eu só dou o que posso.
- Então diz-me: que tens tu para me dares?
- Basta que repares.

sorriu ela ao afirmar tamanho despropósito; ele sabia que era a desconversar, que ela pouco ou nada tinha para dar, que da sua boca as palavras surgiam como nados-mortos

- Só perguntei: o que me dás?
- E eu respondi: tanto o que desejas.
- E para isso tenho de reparar. Reparar em quê?

silêncio por momentos; ela pousa o telemóvel no colo e pergunta, com o olhar fixo nele, entediada

- Que me queres pedir?
- O que tens para me dar.
- Por isso te disse: repara.
- Não entendo.
- Vê o quanto te posso dar.
- Não entendo, não te entendo.
- Repara, levanta os olhos!
- Levanto os olhos? Como assim?
- Tens o que queres à tua frente.

o olhar dela dá uma volta pela sala e regressa para encará-lo com ironia e, logo depois, volta a ocupar-se com o telemóvel

- Assim te dás.
- Assim me dou, tanto quanto posso.

soltou uma risadinha, como quem não quer nada; ele saiu e ela sabe que ele jamais regressará; continua sorrindo; olhos e lábios movem-se consoante a reacção ao que o pequeno ecrã lhe dá a ver.


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foto: Expresso, Fiordaliso

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