sonho em soneto
Ó minha secreta paixão tão distante!
Que verve tua te fez mais desejada?
Serás única, um amor flamejante
inflamando quem sou? Tão inesperada
chegaste, consumindo-me cada instante.
Madrugaste, manhã, tarde, noite dada.
Vens em sonho constante,
chamando minha carne por tão delicada
ilha a mim prometida. Ilha que distante
se aparta, consumida d’ ilação ditada
à ausência que sinto de ti. E eu, ignorante
dessa razão por ti sustentada.
Razões não sei. Podia bem ser o teu amante,
quisesses tu, fosses mais determinada.
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foto de Vladimir Vasilev

O poema surge como uma confissão apaixonada marcada pela distância, pela idealização e pela frustração. Desde o primeiro verso — “Ó minha secreta paixão tão distante!” — o eu-lírico estabelece o tom exclamativo e íntimo, revelando que o sentimento é intenso, mas não plenamente concretizado. A distância não é apenas geográfica; é também emocional, pois há algo que impede a união.
ResponderEliminarA figura da amada surge envolta em admiração e mistério. Ao perguntar “Que verve tua te fez mais desejada?”, o sujeito poético sugere que há nela uma qualidade singular, quase inefável, que a torna irresistível. A interrogação reforça o estado de perplexidade amorosa: ele sente, mas não compreende completamente a origem ou a razão de seu encantamento. Essa incompreensão reaparece mais adiante quando admite ignorar as “razões” que sustentam a distância.
O poema trabalha fortemente com a ideia de presença constante na ausência. A amada ocupa todos os momentos — “Madrugaste, manhã, tarde, noite dada” — numa enumeração temporal que transmite continuidade e obsessão. Mesmo ausente, ela invade o sonho e a carne, mostrando que o desejo é tanto espiritual quanto físico. A imagem da “ilha prometida” é particularmente expressiva: a ilha simboliza algo isolado, belo e desejável, mas também difícil de alcançar. Ao mesmo tempo, é promessa e frustração, proximidade imaginada e afastamento real.
Há um movimento de consumação interior (“consumindo-me cada instante”) que contrasta com a não realização externa. O verbo “consumir” sugere tanto ardor quanto desgaste. O amor é chama (“amor flamejante”), mas é também espera e sofrimento. O conflito central está na tensão entre o desejo do eu-lírico e a falta de determinação da amada — “quisesses tu, fosses mais determinada.” Nesse ponto, o poema deixa entrever que o impedimento talvez não seja destino ou acaso, mas hesitação da própria mulher amada.
Ao nível estilístico, o texto adota um tom elevado, com inversões sintáticas e vocabulário de registo mais clássico (“verve”, “ilação”, “determinada”), o que confere certa solenidade e aproxima o poema da tradição lírica de carácter mais formal. As exclamações e interrogações intensificam o caráter dramático e emocional.
Em síntese, trata-se de um poema sobre a paixão idealizada que arde na ausência, alimentada pela imaginação e pelo desejo, mas contida por razões obscuras e pela indecisão da amada. A força do texto está na tensão entre o fogo interior e a impossibilidade concreta de realização.