ano novo

 

Deixaste que o sol da tarde do último dia te lembrasse das tuas promessas feitas em dias de chuva com maus agoiros. E quiseste essas velhas promessas esquecidas, bem fundo debaixo da terra que tudo transforma. Se o vento e a chuva voltarem, entregas-lhe a porta aberta para te lavar e arejar as quatro paredes cansadas dos cigarros consumidos na penumbra, entre a indiferença do pó velho, acomodando-se.

Pensas que amanhã virá rejuvenescer outra palavra, outra promessa da claridade das águas do ano novo a chegar. Recebes janeiro num sorriso, que um salto de cordeiro aguentará o crepúsculo da tarde plantada na tua janela, antes de abraçares o fevereiro tão namoradeiro que é, e desejas.

Dois dedos de dia irão aumentar o teu alento, por cada dia. Na confiança de que os ponteiros das doze badaladas tragam a magia de tudo recomeçar, a tua tão esperada mudança: parece que foi há dias que nasceste e julgaste morrer, e de novo no mundo te plantas de esperança. Deste conta da vida que tens vindo a desperdiçar sempre que mudam os anos?

Recomeça. Com os passos largos da conquista, ignorando o passado com um encolher de ombros, e total confiança nos amanhãs que tens por erguer. Recomeça com tudo o que tens, desta vez. Não te sustentes em anos passados, anos velhos e defuntos.

Diz aos mesmos de sempre que é desta vez. Que é desta vez que amarás quem queres, que é a desta vez que esquecerás quem deves esquecer. Não te percas em vãs promessas do ano novo. Diz-te a ti mesmo que sim, que desta vez irá valer a pena. E que te esforçarás para que nada seja o que foi.

Nem que padeças e te desapareças deste mundo. Cumpre, mesmo que seja apenas por um só dia, mesmo que seja só pelo primeiro dia do ano novo.

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