o teatro
Quero pouco da vida como teatro, no assento perpendicular à boca de cena. O juiz veste de negro no palco. Eu faria uma canção com os olhos dos gatos vigiando os aplausos quando é não por satisfação do que se assiste ali que se aplaude, apenas a circunstância da vaidade ou a solenidade dos fraques e frous-frous de outrora num arroto de esbanjo gástrico. O acto corre sob fortes holofotes, essa luz em golpe sobre os poros dos actores, a dar-lhes desespero de sede e suor. E o juiz em trajes de luto. Como que a dizer que quem julga está sempre resignado a aceitar a morte do que não medra sob a balança da justiça. Se a tua vida passa por um palco, repara cuidadosamente na plateia, pois o pano cai pelo peso das pálpebras dessa mole plateia zangada com o relógio: que as horas não batem e muito falta para deliberar. Tens de combater o sono dos outros, a modorra dos jurados assistindo. Lá fora, os olhos dos gatos apenas vigiam a veleidade das gaivotas em lhes tirar o alimento, e desse enfado felino já um sem-abrigo terá entoado a canção. Da vida nada há esperar, senão o espectáculo de quem apresenta os seus argumentos e de quem os aplaude. Silhueta de fundo de pintura renascentista é o edifício onde se está representando aquela alegoria milenar, que procura o momento de quando passará o carro-vassoura que lhe há-de limpar o lixo das bermas. Coisa que só acontece, todos os dias, ao romper de novo dia, já quando as ruas desertas e nenhuma vivalma nas suas entranhas.
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(foto de autor desconhecido)

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