ditado


Não quero esta solidão. Nenhum poema, escrito por mim ou lendo de alguém, consegue contradizer a circunstância de isto não ter mais pernas para andar. Nada mexe já, sequer, ainda que haja resolução, por magia de um ânimo saído não sei de que ingénuo pensamento, lutando contra sombras e uns vestígios de qualquer outra coisa, insinuando um ponto e vírgula ente mim e a fadiga. Sobram nisso, entretanto, muitos espaços. Ou, colocando os óculos: apenas páginas em branco.

Quero ver os mortos levados pela chuva, a fazer contas à raiz dos seus ossos em lama, nariz em pingo caído, olhos como bocas de fome, dentes a esboçar um sorriso sobre entretantos não consentidos, sequer imaginados. Então, o negro é, de facto, o mais belo que a puta da vida tem. Nem mais: fodam-se as estrelas e o seu opaco reflexo no olhar, que se desvia do prolixo cliché abundante de tantas vozes.

Podemos ir orientando-nos pelo consolo que vem oferecendo a tarde morrendo, ajoelhada perante a noite que vai galgando pelo relógio o seu espectro arrastado de leste, após o cerco das serras. Só não quero ser eu a espalhar a cinza que manchará os seus declives abandonados à condição daninha do mato rasteiro e ainda dos resilientes insectos de invernia moribundos, dos vermes, dos escondidos répteis, e dos olhos reluzentes de raposas e lobos.

Não quero nada esta solidão. Não esta em concreto, que tanto se demora, vestindo os dias com a fatiota dos séculos. Tem muitas sombras, mas nenhuma de um qualquer consolo. Néscia por tantos vazios desnecessários. Mesmo que ensaiando qualquer pipeta de luz, será apenas um ruído interior por não saber tirar alguém desta modorra. Jaz nela ainda a multidão que ansiei e não tive oportunidade de conhecer, observar.

E há este silencio em eco, juntando-se à verborreia pintada por parábolas, instalando-se com escárnio. Tudo sofre de um murmúrio ausente. Chove já, e vou atender ao sangue que cai nas ruas, contradizendo tudo e o quanto a humanidade jura ver de esperança. E que só por tal motivo se arvora no compromisso de se insinuar viva e ditar vida em seu redor. Morte com este silêncio assim não tem motivo. Morte deve ser estridência, jogo de química, neve, calor, acidez e calcário, caldo das sementes vindouras.

Por que cantava daquela forma o melro? Assobiando a tarde rendida como se quisesse prolongar ainda mais a ironia de encaminharmos a esperança para o abismo. Visto o meu casaco preto, tão solene, a imitar-lhe a nobreza que carrega nas suas penas e plumas, no seu voo insidioso, entre as silvas. Ergo o olhar acima desse mato onde perdi a vista do seu bico amarelo, e saio sem promessa de voltar.

Comentários