restauração


Um homem sem um braço no meio da sala. Piso superior de um restaurante cheio, à hora do almoço de domingo. Podia ser este homem o motivo de discretos olhares, comentários a meia voz entre outra grande vozearia alheia. Mas não foi. Quiçá um cliente habitual, aquele a quem lhe falta um braço, conhecido pelo pessoal que labora no restaurante e outros clientes fiéis. Portanto, alguém que se conhece, embora a sua condição e a forma como é tratado pelos empregados de mesa ainda pudesse suscitar curiosidade alheia, mesmo nos clientes habituais.

Era visível o cuidado dos que serviam às mesas para com o cliente sem um braço: separavam o peixe, incidindo uma cirúrgica observação sobre as espinhas, partir as metades da batata cozida em mais pequenas porções, profissionalmente servindo, de colher e garfo, ora de uma travessa, ora de outra

- Quer mais salada? Assim que quiser mais, diga

e o homem, apenas com a sua mão esquerda, lá foi almoçando no seu vagar. Bebia o vinho da casa, com que, na atenção dedicada, qualquer um dos três empregados de mesa lhe renovavam o copo. Nada que pudesse faltar ao senhor. O cuidado. A delicadeza. A atenção permanente.

Foi por isso que ela tanto observava aqueles gestos. Seria talvez a única entre tantos outros que almoçavam naquele restaurante que dedicava tanta atenção. O seu olhar muito curioso, na primeira impressão, quase desde que o senhor se sentou numa mesa para um. Ela não estava só, na sua mesa para dois. À sua frente

(a grossa aliança dourada que ela tinha no dedo era, por tique, tocada, aligeirada, subindo e descendo a falange, enquanto observava o homem sem um braço)

o suposto marido, homem cuja idade pouco se adivinha, entre ser ainda novo para ser tão velho e já tão velho para ser ainda novo, que, entre garfadas, colocava os olhos na tv de frente, interessado pelas reacções da população em lágrimas face às tragédias quotidianas.

Ela ignorava a tv e os outros clientes tão ruidosos. Só lhe interessava o homem sem um braço, que almoçava devagar com o olhar posto ora no prato ora na janela, sob a atenção cuidadosa dos empregados de mesa.

Quem adivinha os pensamentos desta mulher? Comovida por um homem que almoça, segurando apenas o garfo com a sua mão esquerda, acenando com a cabeça os cuidados de quem lhe servia? Comovida por um homem num restaurante a quem lhe falta um braço?

Ela voltava daquele cenário apenas e tão só quando tinha de manejar os talheres para levar à boca o que comia, ou o copo, quando pretendia beber. Olhava, de vez em quando, o marido à sua frente, sem que ele correspondesse a esse olhar, sem que ambos falassem. Na verdade, a esta mulher pouco lhe bastava ter sido apontada para uma mesa de um só, já que parecia almoçar em total falta de companhia do marido com quem partilhava a refeição.

Era viva a vozearia nas outras mesas. Famílias grandes ou mais pequenas que apreciavam os comentários de uns e outros, intervindo, entre garfadas e goles, o quanto concordavam ou discordavam da amena conversa. As crianças eram também o centro de atenção, não só pelo que comiam ou não, mas também tema de como eram quando mais novas, e o que seriam quando mais velhas.

Tudo o que aquela mulher, tão interessada naquele homem sem um braço que almoçava no seu vagar, não tinha. Não que estivesse a questionar sobre filhos, se os teve, que pudessem também estar presentes naquela mesa. Nada disso. Ela, alheia a todo o restaurante, exceptuando o cuidado com que aquele homem recebia a atenção de qualquer um dos três empregados de mesa. Fosse esse homem cliente habitual ou não. Simplesmente, foi cenário que não esperava encontrar num almoço de domingo, qualquer que fosse o restaurante. E a aliança, dourada quão grossa enfiada no seu anelar, era o único motivo da movimentação das suas mãos e dedos, enquanto os talheres repousavam no prato.

De tanta abstração, falhou o café, só o percebendo e sem vontade de reclamar, quando o marido já beberricava o digestivo enquanto insistentemente colocava os olhos no ecrã frente a si. E veio a conta, que ele, em mais que a meia-idade

(conjecturemos: mais de dez anos do que a mulher)

afastou para ver melhor. E ela, questionando-se, falando muda para com os botões surdos da sua blusa, sempre com os olhos postos no homem sem um braço que almoçava tranquilamente, o que podia ela outra mulher ser, ou então não ter – um braço, uma perna? – desfiguração qualquer que lhe desse a oportunidade de receber a mesma e tamanha atenção que aquele homem conquistara, tão naturalmente, num restaurante…

Nessa abstração, sequer deu conta de que o marido tinha pagado a conta e havia já abalado escadaria abaixo para o piso inferior, junto à porta de saída, consultando o telemóvel. Só o entendeu quando um dos empregados de mesa

- Precisa de algo mais, senhora?

e ela, sorrindo com desdém

(quem adivinhará? – desdém pelo empregado de mesa, desdém pela atitude do marido, desdém por si própria, ou desdém pela incómoda circunstância?)

respondeu secamente que não. Levantou-se, olhando ainda de soslaio o manietado num confuso sentimento entre empatia e falsa indiferença, e desceu as escadas onde no fim a esperava o marido ausente, que murmurou de impaciência

- Foste à casa de banho, ou o quê?

sem descolar os olhos do telemóvel. Ela lá saiu com ele, (des)consolada por uma epifania que havia de acentuar a decisão de como desejaria viver doravante, sem estar confundida com as rotinas.

Confuso ficou o empregado responsável pela mesa vaga, cerca de quinze minutos depois

(tal foi o esforço em atender tanto cliente naquele almoço de domingo),

quando percebeu, entre os talheres usados, no centro da mesa para dois, aquela aliança grossa e dourada, como se oferta de gorjeta. Ficou a aliança em modo de perdidos e achados, nunca reclamada.

Ninguém pôde saber nada mais. A mulher e o suposto marido, nem um nem o outro, a sós, volveram àquele restaurante. Já o senhor sem um braço, soube apreciar, antes e depois, de como é feita a solidão das pessoas. E que o corpo, por mais vírgulas ou parágrafos ou parêntesis lhe faltem, nada é sem a concreta estabilidade emocional que se deseja almejar por quem vive num corpo completo ou incompleto.

Disso, ninguém discernirá, tarde ou cedo. Só mesmo ele, almoçando devagar, sem olhar directamente, mas sempre percebendo tudo, mesmo que sejam olhares poisados na sua nuca, ou observando como se alimenta alguém apenas com um só braço, uma só mão.


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(foto de autor desconhecido)


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