sede
Tenho por ti sede. Observo, tímido e maravilhado, a tua vulva nua e quieta, guardando os seus
(os teus)
segredos. Articulo gestos pueris, densamente entusiasmado. Numa tentativa de, sem dar sinal de qualquer ofensa, tentar
(tentar não significa conseguir)
tocar-lhe. Tocar-te nesse mistério, bosque que esconde particulares pontos cardeais que suscitam a intensa asma de prazer que se desloca à tua garganta num misto de espasmo e gutural. Imagino
(imaginar não significa saber)
que é isso que acontece. E, depois disso,
(ainda imaginando)
entranhados os meus dedos entre ligeiros declives e floração, ouvir o meu nome, mansamente e languidamente repetido. Uma entrega total e bilateral. A minha língua entumece, crendo-se outra península de mim e, num impulso de quem não come há dias, o desejo de afundar rosto e boca na tua ferida de prazer para saborear o morango que, deliciosamente
(deliciosamente significando gulosamente)
se mistura com a minha saliva. Mais sede tenho.
Se pudesse haver ainda sombra de ofensa, foi a tua mão que a arrumou. Tacitamente os teus olhos insinuam que é meu dever tocar onde te nasce um rio e onde ainda, no mesmo lugar, se anuncia a sua foz.
Então, mesmo com pequenas hesitações, atrevo-me. Toco a tua vulva levemente com a polpa já desfeita dos meus dedos em ardor. Os teus olhos reviram-se num tom entre a sofreguidão e o desejo de que todo um caminho seja cumprido. Sem que digas qualquer palavra. Apenas um murmúrio que os teus lábios vivos soltam, em túrgida complacência com o que a outra boca tua faz por se revelar.
Estou lá, estou aqui, e estou aí, sempre contigo. Sempre contínuo, já sem hesitações. Dentro e na margem do que te faz contrair o ventre. Colho com a língua os fluidos emanados com cada interjeição da tua voz. Que diz que vens. Depois, num tom de quem sofre
(sofrer significa desejar)
as tuas pálpebras conjugando a força com que apertas os lábios, parece que vais, para novamente vires, gritando aquela sofreguidão, e outra vez, mais outra ainda, até te cansarem as pernas erguidas sobre os meus ombros.
E eu, lacrimejando, implorando sempre, sempre, que me sacies esta sede, esquecido já da primeva intenção dos meus gestos pueris.
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foto de Artem Volkov
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