minha folha caída


para a minha Mãe

As folhas das árvores caducas já vão caindo, ainda que o outono mal se perceba, por não fazer ainda aquele frio, sabes? Assim, aqui e acolá, surgem sobre os poliedros da rua calcetada.

Quando, naquele dia, as observei húmidas, reflectindo a claridade que se vai esgotando a cada dia de outono, entendi: todo o céu, o ar, o horizonte diante dos olhos, tudo se desfazia em pequenas gotículas, ora como um orvalho mais forte que molha o rosto, ora como um nevoeiro adensando-se no horizonte: era o outono instalando-se.

Dois anos mais tarde, o outono é de sol e de temperatura de verão ameno. Não veio como quando te foste, com aquela chuva miudinha que, depois de pairar, e sem vento que a levante, se rende ao chão – aos poliedros, às folhas amarelas das árvores que as largam plácidas e languidamente, como gente que se despede de gente que deixou de cá estar.

Como eu tive de me despedir de ti.

Andamos tão acossados no ter e no haver, disfarçando não reparar em quem não tem nem há, grunhindo saudações a quem passa sem realmente saudar, e não percebemos como se despedem as árvores das folhas. Ou como certas raízes deixaram a sua função, nem na forma como pequenas nódoas nos muros cresceram em bolores. Como as sombras se instalam nas arestas de cada parede à espera de as tomar por completo, e de quem nelas se quede encostado. Enquanto as trepadeiras vão teimando em chegar mais alto e além.

Lembras-te de como esses fenómenos observávamos, e às pessoas que passavam na rua?

Ficávamos à janela, não sabíamos bem se a queríamos aberta ou fechada – talvez porque não fizesse ainda aquele frio ou já frio seria – e lá íamos conversando, umas vezes sobre algo que tinha acontecido há muito tempo

– Isto aqui e até li era tudo pinhal

ou então sobre aquelas pessoas que passavam na rua

– Aquela ali é tua prima ou sobrinha, já nem sei bem, dos que moram lá para baixo e que ainda são teus parentes

As pessoas continuam a passar nesta rua onde agora estou sem ti

(tu semeada no cemitério depois do rio)

e lembro a morrinha de quando te enfiaram no caixão para arderes. Quieta, serena. Não eras tu. E a rua não era esta que vejo da janela que muito partilhamos. Era mais lá para baixo

– Aquilo lá para baixo era tudo pinhal, ou quintas de fidalgos esquecidos

era a rua frente à capela mortuária, onde pessoas passavam grunhindo uma qualquer saudação sumida nos lábios ao perceberem a estranha forma como eu observava as folhas caídas, nas quais se reflectia alguma claridade, uma vez que o céu, ainda que carregado de chumbo, não podia dizer-se noite. Um céu nublado que fazia a tarde parda como um gato que assoma sobre os telhados

– Lá vem ele a miar como alma penada a implorar aos céus

gracejavas, quando o gato preto regressava a casa, miando muito, é verdade, por tão só ouvir o teu ciciar que o chamava para comer.

– É tão tolo este gato

o mesmo tolo que imagino eu agora o que puderam pensar aqueles que passavam naquela rua, olhando-me de lado por quase me agachar para observar as folhas amarelas e tão humedecidas sob uma morrinha constante, folhas caídas órfãs da árvore-mãe.

Benzeu-se fervorosamente a primeira mulher que diante da tua urna quis espreitar. Não sei se seria uma dessas primas ou sobrinhas daqueloutros que pertenceriam a uma qualquer casta dos meus parentes. Se nunca a tinha visto, também nunca mais a vi. Isto é, deixei de estar à janela, sabes? Pouco me importa quem passa, se todos os pinhais que referias são hoje o terreno fértil para prédios em betão se erguerem e se espalharem com a mesma teimosia das trepadeiras.

E aquelas gotas de chuva, nesse dia, reflectem-se na minha memória como estas gotas cristalinas que Chopin uma vez compôs. Um arrelio, aquela morrinha, a que molha os tolos que acham que, por ser uma chuva tão miudinha, não há-de encharcar quem por ela passa, e esquece. Porém

– Olha que só se molha quem acha que não anda à chuva

afirmavas, porque gostavas de trocar os trocadilhos das gentes. Tu, tão adversa a gente que não sabia abrigar-se. E eu naquele dia, depois da tua urna, corrompendo o teu dogma, molhando-me apenas para enxergar as pequenas folhas amarelas, caídas plácidas e languidamente da árvore que não tarda em tornar-se, daqui a meses, num esqueleto de ramos nus praguejando aos céus.

Sempre acabo por me deixar assombrar por eles. Não pelos esqueletos das gentes

– Medo de esqueletos, que tolice!

porque, como dizias, esses são restos de coisa de alguém que já foi e que só assombra a quem não sabe encaminhar assombrações e encostos para o mar coalhado.

São só estas árvores que se vão despindo, assim como as raízes na terra desistidas, que o tempo e a terra demoram tanto a moê-las. Assombram-me pela estação velha que anunciam.

– Fecha a janela, vem aí temporal

avisavas, já sem ninguém a passar na rua, as vidraças fustigadas por uma chuvada de verdade, enquanto aquele táxi, que esperávamos, ainda não aparecia na curva. Havia o doce aroma dos pasteis de bacalhau no óleo, o arroz de ervilhas quase cozido. A claridade de luz fria no tecto da cozinha. Para ti, só seria noite e escuridão quando fosse para dormir. Porém, as persianas das janelas enganando, para receber a paz da luz mal nascesse o dia seguinte. Sempre quiseste o dia seguinte para qualquer coisa que nunca compreendi, por isso nunca cerraste completamente a janela do teu quarto.

E o táxi lá chegava, como se adivinhasse. Dele saindo, abrigado na sua gabardine, o homem que amaste, pai dos teus filhos. E, no dia em que me deste a ver o mundo, em que pude finalmente sentir o calor e o olfacto do teu peito como um roseiral, havia ainda um outro aroma, do forno velho aligeirando a dura carne de um galo que matavas com tanta misericórdia, bem dizendo a Deus e a toda a Natureza que respeitavas como sagrado.

Também, nesse dia, o aroma da castanha, mais o do cálice de vinho do Porto do homem que te fez o filho.

Disse-te que já não vou à janela. Também já não há tais aromas, a não ser de vez em quando o cálice de Porto por tradição. Mas, se daquela janela já não me importa mais ver que gentes passam, e que mais ninguém esteja interessado em saber o que havia antes dos prédios em betão, ou que parentes antigos possam surgir num acaso, é porque não estás lá comigo, nem sequer estão os que, por mim, depois de ti vieram.

Se ainda reparo, neste outono quente, na folha amarela caída da árvore, é porque já não podes observar os tolos que da chuva miudinha não sabem abrigar-se. Mas, sabes?, se não chove hoje, passados dois anos, são os meus olhos que o fazem. Julgara-os secos após tantas camadas de desgostos que tive e dos quais muitos conseguiste aliviar-me. Como as árvores, os meus olhos resolveram render-se apesar da resistência que exigias de mim. Chopin ajudou-me na agudização para que deixe chover finalmente forte dentro de mim, e na solidão que me deste, pela saudade que me resta de ti.

Que chore então Chopin no piano por mim, e contigo. Esqueci a folha da árvore caída. É a primeira de muitas neste outono que começa. Sei que tu estarás sempre entre os gladíolos na terra que me deixaste e brotam em cada primavera, para renovar o meu ânimo. Essas flores jamais serão como as árvores que deixam cair suas folhas, ou as raízes que desistem. Porque, nessas sementes que na terra deixaste

Minha Querida Mãe,

a cada rebento de um gladíolo, saberei sempre como rejuvenescer-te. Ou olhando, algures, cada oliveira de pé que encontre, para que exalte a linda transmontana loira que foste, com olhos da cor da azeitona que tantas vezes varaste, de pés descalços sobre a geada, tão menina eras, sem medo a nada.


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texto sujeito a revisão

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Chopin:

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