não: definitivamente


No tempo em que julgávamos que podíamos ser unos, tu assumiste que o controlo sobre mim era uma forma de amor. Talvez também eu o tenha julgado, porque tem de haver cedências de ambas as partes. Mas isso delineou uma fronteira que deixou de ser invisível no instante em que alguém a atravessou depois de lhe termos apontado o caminho de regresso. Eu cedi, tu cedeste, mas foi insuficiente. Por isso te disse que não, mais nada podia haver. Disse-to sem ira. Sem teatro. Sem desejo de castigo. Disse-to porque percebi que já tinha fechado a porta por onde antes podias entrar.

Tu confundiste a serenidade com hesitação. Confundiste a ausência de violência com esperança. Aliás, confundimos ambos. E, apesar da minha desambiguação, continuaste, foste cedendo. Cada passo teu era dado como quem acredita que o mundo acabaria se eu deixasse de ceder à minha fraqueza e à tua tácita insistência. Como se todas as portas, depois de suficientemente batidas, tivessem de acabar inevitavelmente por abrir.

Não abriram. Não porque passasse a ver-te menos inteligente, nem menos culta, nem menos bela. Nem sequer porque sentisse falta desse amor que confessavas. Foi apenas porque esse amor já não encontrava em mim um destino. Há estradas onde dois viajantes se cruzam, e parece tudo combinar, parece tudo perfeito. Connosco, sabes que não foi assim, que tudo se degradou desde o primeiro momento em que nos desentendemos, abrindo um caminho entre o mato que nos unia, que se foi desbravando à medida que os nossos embates foram sendo, cada vez mais, violentos. Escolhemos estar em contra-mão.

Não ao mesmo tempo. Primeiro eu, resoluto de que ninguém me havia de controlar, depois tu, em que o Não representava deixares de me controlar – o que me fez ainda mais afastar. Ponderei ser por culpa minha. Há sempre um momento em que quem recusa procura dentro de si uma dureza que talvez nunca tenha existido. Pergunta-se se falou suficientemente claro, se o silêncio terá parecido convite, se a delicadeza foi interpretada como fraqueza.

Mas a culpa desaparece quando a palavra Não precisa de ser repetida. Porque um Não repetido deixa de ser explicação, e passa a ser defesa. Foi então que compreendi uma coisa simples: nenhuma falta me fazias, excepto naqueles meus momentos de fraqueza, da sempre declarada carência, e do facto de reclamar a minha auto-imposta solidão, tão contraditória. Queria apenas o sossego que a tua insistência roubava.

O amor tinha partido muito antes. O corpo permaneceu algum tempo na memória, como permanecem certos perfumes em casas onde já ninguém vive. Mas também isso acabou. E quando se acabam as últimas ilusões, sobram apenas duas pessoas: uma continuando a acreditar que insistir é vencer; a outra já convencida de que, afinal, há palavras cuja dignidade reside em nunca mudarem de significado.

Não. Esta foi a única palavra que permaneceu inteira, para mim. Todas as outras envelheceram. Gastas, como disse o poeta, ao que acrescento: também os actos, os acasos, os ensaios para ver se havia resultado que desse alguma esperança.

Mas insisto: não. Não: a palavra que em mim resiste e que permanecerá, até o que foi de nós restar apenas como poeira da memória.


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