flor de narciso


em memória de António Lobo Antunes

Visito o lugar ocupado pelos mosquitos de verão, o velho tanque repousando a água fresca da velha fonte; e acontece seguirem-me os instrumentos de escrita e de leitura, ferramentas confidentes do artista, para a labuta das palavras sobre um tampo de mesa mal aplainado, marcado, porém, por gerações de escribas e leitores dos serões em que a ainda não se conhecia a electricidade.

Sento-me no banco tosco, procurando adaptar-lhe a fisionomia do corpo. Um carreiro de formigas atravessa sob os meus pés. Cauteloso como um monstro delicado, tenho o cuidado de as não pisar.

Estendo a vista para o pomar defronte. Reconheço o fruto de umas árvores; de outras não. A erva alta, rebelde. O papel ainda branco. A noite insinuando-se na queda do sol para lá da serra. Demoro-me a brincar com a caneta entre os dedos.

Deixo o dia abater-se contra o muro ao meu lado, o sol quente, languidamente inclinado. O horizonte imaginado estilhaça-se em mil pedaços, como uma derrota adiada para o dia seguinte. Tu, jazido nos escombros. Eu, imaginando abrir caminho, lentamente, até onde o chão volte a verdejar, até que as feridas dos meus pés se fechem e me seja possível dar, enfim, o passo corajoso até ti.

Após uma pausa – breve ou longa, não sei dizê-lo – escrevo o meu nome, com caligrafia enviesada, à mercê dos relevos do tampo da mesa. O meu nome. Mais nada. Levanto-me. Estico as pernas. Espreguiço os dedos. O meu nome, à luz parda do entardecer. E com tanta coisa de que poderia ter dissertado.

Ali permanece, simples risco sobre o papel, até que a noite engula a sua brancura e a transforme numa parcela da soma das suas sombras. Não fará luar nesta latitude. O meu nome continuará ali depois de eu abandonar o lugar, para assistir, do outro lado, a outra hora, ao romper de um novo dia.

O meu nome. Eu. E uma flor de narciso ao lado, sobre o tampo irregular da mesa onde outros escribas e leitores me antecederam. Bem perta, a ideia de ti. Aquela que ainda é minha. Só minha.

Foste tu, afinal, quem, sílaba a sílaba, abriu esse novo caminho. Deixei de ficar parco de palavras perante o alinhamento inevitável do destino das tuas. É no teu trabalho sobre a pedra que as palavras te exigiam, sob o cansaço dos dias que te espremiam entre hesitações, alegrias e angústias, que posso reerguer a muralha onde, abrigado pela tua sombra, me pouparei aos ataques verborreicos de tanta gente erguida em falsos pedestais, teimando

(como se qualquer um fosse capaz de levantar um muro, construir uma casa, rasgar ruas e avenidas, alargar aldeias e cidades) 

gente teimando afirmar que escreve livros.


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imagem: GIF produzido através de foto cedida por Cristina Lobo Antunes

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