prelúdio
Suspiras como uma sinfonia, fazendo destas paredes as confidentes do teu corpo. Por capricho, maldade ingénua ou simples amuo momentâneo, o vidro da janela sustém o fulgor da claridade plena, desviando a luz da tarde para um ângulo isolado do quarto, onde as partículas de pó se atropelam por algum protagonismo.
Dizes que escrevo inseguro, que sofro de uma pueril falta de confiança, mas logo percebes a oscilação do tampo da mesa onde tateio, incapaz de manter o rumo do navio na iminência de uma tempestade. Tudo se move contra a vontade. Não sentes? Essa desconfortável vibração, como se o mundo estivesse prestes a ruir; e, antes de nós, já as aves se sobressaltavam numa revoada de espanto, fugindo.
Não temos cidade, escaparam-se-nos as copas das árvores, e quando sopra uma brisa é um hálito tão temeroso que acabamos por duvidar do sentido desta existência. Dos teus suspiros nasce a ideia de uma demanda, mas não sou anjo nem cavaleiro; não vim para dar salvação e estarei sempre a desistir como um derrotado. As minhas palavras não produzem, apenas espigam como o joio. Seguem temerosas, num veículo que oscila, desmedido da força da corrente, inconsciente da velocidade.
Hás-de reparar nos semblantes de quem viaja no regresso a casa, com a fadiga nos dedos e um grito incerto no olhar. Não sabem por que gritam, ou por que lhes apetece gritar. Agitam os cabelos os que ainda os têm, fumam os seus cigarros os ainda viciados, deambulam todos, perdidos. Aquelas cabeças dançam, abandonando-se a incertezas – sem receios, podemos notar, mas ainda assim apreensivos com a escuridão certa e irrefutável.
Nas palavras que ainda brotam de mim há também mulheres bonitas, dessas que seduzem apenas pela forma e pelo gesto singelo da sua feminilidade. Navegam no mesmo tampo. Viajam no mesmo corredor. Vão também sem ninguém dentro, a sentir que a alma lhes pesa tanto quanto um acessório inútil no fundo de um bolso. Sorrio-lhes, com certa comiseração, e observo-as a desperdiçar o ânimo para dentro da sombra. Respondem ao meu sorriso como se mais nada houvesse, mas, mesmo assim, indiferentes a uma possível tábua de salvação.
Já não se carrega a humanidade na carne. Teme-se o amor. Todos nós o tememos, pressentindo a aflição de o perder. Já não suspiras, ou é o acto final que te deixa a desmaiar. São as pálpebras na procura da vigília conciliadora. Se me vier o sono, será norte ou será morte. Porém, das janelas, ainda persiste a tal luz angular. Questiono-me sobre esta demência disfarçada de entorpecimento: terá sido hoje o sol tão raro?
Perdi a parábola. Era suposto falar-te e nada soube dizer. O que pode ser dito do indizível? O que se pode dizer com a distância que nos separa? Soltam-se as palavras do alinhamento da escrita e perdem-se entre os cantos, na subida das paredes, amedrontadas com a vibração do chão. Como bichos que rastejam. Contemplam o bailado da poeira no vértice da luz desviada e aspiram, alucinadas, ao mesmo protagonismo – furiosas, desequilibradas, quase humanas. O teu corpo dorme, neste meu delírio. Levo os dedos aos meus lábios, recordando que tinhas prometido vires para os beijar. Podia ter sido faúlha para chamas intensas, e depois o borralho que aconchega. Porém, aqui, nem as cinzas disso tenho para observar.
Os dias sempre foram muito bem contados, não podemos distrair-nos. As madrugadas serão sempre imensas enquanto dormes. Mesmo que haja dia, mesmo que a noite dite o fogo. Teria graça poder contar-te como foi, e porque afinal escrevo verborreias. Pena terás, quando e se finalmente resolveres regressar: só encontrarás as papoilas sobre a minha campa.
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foto de Berber Theunissen

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