delicadamente, e sem pretextos


Nada dizes. Ouviste a chuva? Caiu sem pretextos, delicada. Imobilizou o chilreio dos pardais e deu outra vivacidade ao verde das folhas das árvores altas. Vejo daqui: escorre breve agora pela rua, onde se junta em minúsculos riachos, aspergidos à passagem indiferente dos automóveis que salpicam os desprevenidos. Observo a limpidez das pedras no jardim, as gotas cristalinas nas pétalas das flores. E o vidro pontilha-se agora de uma outra chuva, tão repentina quão breve e mais forte que a outra. Vejo vultos vagos naquelas outras janelas em frente, recortando sombras atrás das cortinas, agitadas. Assomam como pessoas, afinal. São famílias em convívio, entendes? Estão só admirando as novas navalhas da chuva, após a ameaça de uma tarde quente e de trovão. A água cai com a força da primavera. Delicadamente, e sem pretextos.

Sim, observo-te daqui, do branco-sujo do linho onde o meu corpo se perde atrás da penumbra da tua ausência. Vejo a tua silhueta longa, recortada contra a claridade excessiva dessa vidraça. Leio-te as costas, o modo como te inclinas para melhor veres a chuva repentina. Sei que não foi só por isso; sei bem que procuraste sair daqui para te limpares em cada gota caída. Aguardo-te depois do silêncio com que deixaste a cama, vendo os vultos naquelas janelas: famílias, vozes. Sei que imaginas as vozes e a família que eu sempre te recusei. Tenho medo dessa tua transparência repentina. Medo de que, por veres essa limpidez que a chuva confere, decidas que o meu amor condicional é um peso demasiado denso para uma tarde tão lavada. Então, imagino-te a partir sem saíres do lugar, enquanto eu fico na sombra, amando-te com a certeza de que regressas da janela sempre um pouco mais distante. Nunca aceitaste quem sou; como te posso dar mais de mim? Mas disfarças delicadamente, e sem pretextos.

As nuvens dissiparam-se, dando lugar a um sol lânguido. Ouve-se apenas o som rítmico do gotejar nas caleiras. Deixando a janela, o homem desloca-se da moldura. Ensaia um sorriso que denuncia a tranquilidade por ter assistido àquela frescura trazida pela chuva após o ensaio de uma tarde de trovão. Sem pressa desloca-se, passo sobre passo, entre a sombra e a claridade que o sol quer devolver ao quarto. A mulher continua deitada na cama sobre os lençóis. Ela não se move; mantém os olhos fixos no homem que continua sorrindo, escutando o peso de cada passo que ele faz sobre a madeira antiga. A porta do quarto abre com o rangido que sempre teve e que, para ele, sempre lhe soou a coisa antiga. No corredor envidraçado há muita luz: o sol ali entrou, e cada gota da chuva nos vidros, já secando, parece-lhe um cristal raro. A porta do quarto encosta-se, mas o trinco não chega a morder o batente. Fica apenas entreaberta por um fio de luz ténue que corta o chão do quarto, separando o silêncio da mulher e o abandono do homem. Delicadamente, e sem pretextos.


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