monólogo interior (quase tocando o paraíso)


You got too close to heaven, that's all
Mike Scott – The Waterboys
da canção e álbum homólogos
Too Close To Heaven, 1985


Há-de chegar o fim do teu tormento. Nenhuma dor. Só verás o sol em todo o seu esplendor, reinando no azul do céu, irrompendo entre a chuva. Tão alto quiseste subir, mas sabes que, na derrocada, a queda é maior. Porém, quase tocaste o paraíso, e só isso basta.

Irrompe o teu pranto mal acordas, sentindo que ninguém do outro lado. Chora, então, o quanto precisas. Até podemos passar o dia inteiro chorando. Mas, quando isso terminar, quero que repouses a cabeça, livre dos teus fantasmas, e a faças repousar. Talvez voltes a dormir.

Tens caminhado num desassossego, afogueado com as preocupações alheias, tímido por te mostrares. Sentes-te pequeno, e até queres ser invisível, mesmo quando te dizem – e não acreditas – que és o melhor. Como se tu tocasses o paraíso, meu querido.

És demasiado severo contigo mesmo, o que é um equívoco – principalmente no básico. Pensas que não tens qualquer valia, e por isso não acreditas quando te dedicam almoços, jantares… quando querem estar contigo.

Sentes as sombras que enegrecem o teu coração, evocas Ícaro e Saúl, desacreditados ambos. Mas não percebes que, como eles, estás tão perto do paraíso… e é só isso, foste tão longe sem acreditares, dá-te vertigens, e tens medo da queda.

Essa mágoa não é inédita, também há outros que escondem equivalentes abismos, muitas vezes tão profundos quanto os teus. Como tu, desejam encolher-se em posição fetal e nenhuma luz que incomode. Como tu, feitos num novelo. Mas, tu és diferente. Porque chegaste tão perto do paraíso…

E, nesse contexto, deslumbrado, desconfias da luz brilhante; porém, parece que nem isso muda o vazio que os teus olhos insistem. Quando eras jovem, os mesmos olhos muito brilhavam… Evita fugir, quando ouves quem te chama do outro lado da luz.

Só queres fugir porque não sabes o quanto estás tão perto do paraíso. Muitos homens palmilharam milhas de desertos por isto, meu querido. Por que não abres os braços e aceitas que és

(e sempre foste)

contra tudo o que sempre te convenceste, um predilecto? Por que resistes sorrir à vida?


...
(texto inspirado pela tradução livre da canção em epígrafe)

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