pensar incomoda


Sabes, é um desespero isto de escrever, uma dor que remói, a cárie de um dente a extinguir-se na boca… Falo da boca porque é a boca o instrumento para participar em conversas, umas fiadas, outras existenciais, algumas polémicas, como aquele absurdo de

«não haver deus é um deus também»

e, a quem apetece conversar com uma dor que remói, com a cárie de um dente a extinguir-se? Por isso, o não saber escrever surge como um abcesso, uma ferida aberta, ou aquela dor que nos fatiga a cabeça e nos impede de ver televisão, ouvir música ou ler um livro; o pensamento longe, o brilho do ecrã que fere os olhos de lágrimas, a música alta ainda que os decibéis já rastejem pelo chão, as letras miudinhas no livro, mesmo sendo uma edição feita para descansar a vista, e o pensamento desviado, queixando-se

– Dói-me a cabeça

ou não bem uma dor de cabeça, uma dor de velhos

– Dói-me os ossos

assim mesmo, sem concordância, porque os ossos doem todos numa só dor.

De modo que, podes acreditar, é um desespero isto de escrever. Alberto Caeiro dizia que «pensar incomoda como andar à chuva»; sinto agora que escrever é pior, é como não saber o destino do comboio onde entrámos, aquela velocidade a que passam as árvores, os postes de iluminação, as casas, os automóveis parados pelo alarme da campainha à passagem da composição. É assim que se apresentam as palavras compostas que, para serem escritas, se recusam a obedecer a sinais e campainhas, e o cigarro

– Dás-me um cigarro, Rosa?

aceso apenas porque o papel morre na sua brancura.

Há quem defenda que a brancura é sinal de pureza, mas a virgindade do papel representa o luto pelas palavras abortadas na cancela esconsa do meu pensamento. A cancela fechada, o comboio passando, levando na velocidade as árvores, os postes, as casas, os automóveis parados no alarme da campainha, rugindo como rugem os animais feros.

Eu para a Rosa

– Dás-me um cigarro?

e o cigarro não afugenta as feras, o cigarro não afasta coisa nenhuma, apenas composto na boca de onde a dor teima

– Dói-me um dente

quero dizer

– Dói-me a cabeça

ou antes

– Dói-me os ossos

essa dor dos velhos, dor senil; é isso, uma dor senil, senil como a senilidade com que as palavras se me amontoam na cancela esconsa do pensamento.

Sei lá escrever poesia, tão-pouco um conto, quanto mais o romance que um dia prometi escrever e ficou entalado na garganta como a espinha de peixe que se espeta na laringe e, já depois de engolida, deixa a sensação

– Tenho uma espinha atravessada na garganta

e espinha nenhuma, apenas a sensação, a sensação de que as palavras ficam entaladas, espetadas como espinhos de um cacto torto, abandonado nos confins de uma varanda só visitada pelo pó.

Olho para baixo e vejo a linha escura, os carris cansados, o comboio ao longe, apitando, assomando, rugindo como animal fero, e o cigarro que me dás apenas uma mortalha cheia de folhas secas, que não exorciza de modo algum esta dor de cabeça

de dentes

de velhos

o cigarro não exorciza, o cigarro não tem fogo suficiente para afugentar as feras-palavras, teimosas,

ou melhor,

as palavras, enfim, como nados-mortos ou abortadas na cancela esconsa do pensamento, e por isso para quê o papel virgem, para quê um cigarro, porquê

– Dói-me a cabeça

se não é a cabeça que me dói, nem os dentes, nem sequer

– Dói-me os ossos

Que me resta? Um saco de água quente nos pés ao deitar, porque a velhice exige o conforto? Todos procuramos o conforto, assistindo à televisão, ouvindo música, ou lendo um livro de que nada entendemos porque longe vai o pensamento, à espera que o comboio abrande a velocidade das árvores, dos postes, das casas, dos automóveis rugindo à espera para assaltar o outro lado da estrada, convulsos

– Deixai-me passar

buzinadelas dos outros atrás que sofrem por tanto esperar, e as palavras, dando aos ombros, levantam o dedo médio e respondem, escarninhas

– Passa por cima! Consegues voar?

e isto quando, no mesmo momento, atravessa distraída uma velha muito fraquinha, por sinal representando a palavra exacta que me escasseava para começar aquela poesia,

não, o conto,

não, não, o romance

que não sei escrever.

Leva-me em reviravoltas dignas de estrela de circo esta velha,

perdão,

esta dor de cabeça, esta dor de ossos ou, para ser mais simples, esta dor de dentes, esta cárie de um dente destruído que é o tentar escrever algo conciso sem que me seja possível, e por isso

– Dás-me um cigarro, Rosa?

mas o cigarro não exorciza, muito menos ressuscitará o corpo que jaz sob uma poça de sangue, o automóvel agora sem rugir, amolgado como se

– Dói-me os ossos

frente à velha atropelada que já não pode falar, lembrando-me de que nada poderá remediar o facto de ter perdido, sob as rodas, a palavra que me iniciaria num discurso mais longo. De forma que… sabes? Escrever dói. Dói muito mais do que «pensar incomoda como andar à chuva».


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(foto de autor desconhecido)

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nota sobre este texto por
Maria Clara Resende
(a quem agradeço por tão delicada atenção)

Já conhecia este texto de José Alexandre Ramos (JAR). Li-o sem esta revisão, no seu esqueleto de 2003, urdido na sua juventude quando tateava os limites da linguagem. A engrenagem original parecia-me refém de um mimetismo que ensombrava a singularidade do autor. Foi preciso o decurso de vinte e três anos para que eu, numa nossa conversa recente, lhe desse o impulso necessário para que reanimasse este escrito; instiguei-o a regressar àquela cancela, como se a palavra ali atropelada pudesse, imageticamente, assombrar (no bom sentido) o autor, ressuscitando-a dos escombros do tempo com a crueza que a maturidade confere.

O resultado foi este pensar incomoda, um objecto literário de densidade invulgar que se move no território ambíguo entre a crónica e o fluxo de consciência. A premissa que ancora todo o texto é de uma lucidez dolorosa: «Sentir-te só na escrita é a dor mais antiga do mundo» - cita ele uma amiga sua. JAR transforma essa solidão ontológica numa patologia física, numa urgência somática. A escrita não é aqui um exercício helénico de contemplação, mas sim uma aflição biológica: «uma dor que remói, a cárie de um dente a extinguir-se na boca», que evolui rapidamente para a imagem clínica de «um abcesso, uma ferida aberta».

Há citação nesta crónica da arquitetura pessoana que subjaz ao texto e que com inteira justiça reclama o seu lugar desde o título. JAR constrói o fecho de abóbada da sua crónica sobre o famoso verso de Fernando Pessoa: «pensar incomoda como andar à chuva». JAR opera aqui uma subtil e inteligente simbiose, convocando, na verdade, a matriz de Alberto Caeiro  O Guardador de Rebanhos, heterónimo que Pessoa criou para ser o mestre do anti-inteletualismo, o homem que defendia que «pensar é estar doente dos olhos». No poema IX de O Guardador de Rebanhos, Caeiro afirma categoricamente: «Sou um guardador de rebanhos. / O rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos são todos sensações». É neste mesmo heterónimo que reside a mundividência de que o pensamento conceptual destrói a pureza do real.

Contudo, JAR vai mais longe na sua tessitura intertextual. Ao citar a polémica frase «não haver deus é um deus também», o autor evoca implicitamente o eco de Ricardo Reis (com o seu estoicismo pagão) e, sobretudo, a desolação existencial de Álvaro de Campos, o heterónimo da modernidade e do cansaço, ou até o próprio Fernando Pessoa ortónimo no seu permanente conflito teológico. Mas a emersão direta de Caeiro através da máxima do "andar à chuva" serve um propósito dramático fundamental no contexto da crónica: JAR usa o mestre da sensação para subverter a sua própria premissa. Se para Caeiro o pensar incomoda, para o narrador de JAR o escrever é pior. Escrever é o agravamento da doença do pensamento; é a tentativa falhada de traduzir a sensação pura em signo verbal.

É indisfarçável, e assumida pelo próprio autor, a influência monumental de António Lobo Antunes (ALA) na génese deste texto. A marca de ALA na literatura contemporânea de língua portuguesa, e especificamente na assinatura de JAR, manifesta-se através de uma técnica precisa: a polifonia, a dissolução das fronteiras temporais e a fragmentação sintática.

Em «pensar incomoda», detectamos os estigmas mais puros da escola antuniana. O uso de parágrafos longos abruptamente cortados por travessões que introduzem vozes exógenas – memórias, diálogos fantasmáticos, interpelações ao quotidiano – mimetiza o mecanismo da memória humana, que não processa o mundo de forma linear, mas por contiguidade e sobressalto. Quando o narrador interpela a memória da Rosa: «– Dás-me um cigarro, Rosa?», ele quebra a linearidade do discurso para demonstrar que o ato criativo é permanentemente sitiado pela trivialidade ou pela lembrança.

Outro fundamento claro da influência de ALA é a desobediência gramatical deliberada em prol de uma verdade psicológica superior. A insistência na expressão «– Dói-me os ossos», que o próprio JAR faz questão de sublinhar no texto – «assim mesmo, sem concordância, porque os ossos doem todos numa só dor» –, é um tropo tipicamente antuniano. A dor anula a norma culta; a sínquise e o erro gramatical passam a ser a única tradução possível para o desmembramento do sujeito.

Todavia, onde JAR se liberta da imitação estrita de ALA para fixar a sua própria marca atual é, a meu ver, na introdução de um elemento contemporâneo de violência urbana e ironia cáustica. A passagem em que os automóveis e as palavras ganham contornos de um trânsito caótico – «buzinadelas dos outros atrás que sofrem por tanto esperar, e as palavras, dando aos ombros, levantam o dedo médio e respondem, escarninhas – Passa por cima! Consegues voar?» – afasta o texto da melancolia puramente rural ou burguesa de algumas matrizes de ALA e atira-o para o asfalto cinzento e agressivo do século XXI. As palavras já não são apenas "feras" abstratas; são agentes de um escárnio quotidiano, de uma modernidade histérica.

O desfecho da crónica é de uma mestria trágica irretocável. A procura do conforto (o livro, a música, o saco de água quente) é interrompida pelo horror do atropelamento da «velha muito fraquinha». O carro, que antes rugia como uma palavra teimosa, agora jaz «amolgado». 

A ironia final desta recensão reside na constatação de que JAR escreveu uma crónica inteira sobre a impossibilidade de escrever. O poema, o conto, o romance que ele alega não saber grafar estão, na verdade, contidos nesta mesma negação. A palavra que se perdeu sob as rodas do automóvel é a própria crónica que acabámos de ler. JAR, resgatando o “aprendiz” de 2003 com as mãos seguras de 2026, prova que escrever nasce frequentemente do luto, da perda e da impossibilidade. O papel, outrora virgem, cumpre o seu destino ao acolher os «nados-mortos» de uma dor que, afinal, incomoda muito mais do que andar à chuva. É um texto magnífico, definitivo, que merece a luz pública aqui – na justa geografia de um escritor que se nega enquanto tal, mas que o é – não haja disso dúvidas.

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