espaços


Sex is something you do while you're waiting for something better to come along.
Charles Bukowski
The Bukowski Tapes, de Barbet Schroeder
documentário de 1983

Languidamente, deixei madrugar os espaços entre as lentas folhas de papel rasuradas, sem perceber que me nascia uma melancolia abstracta. O teu rosto inquieto, com o olhar bebendo as palavras num acto de fé, a esperares encontrar uma relíquia. Não era a mim que lias, mas a ti, que te procuravas nos espaços entre os rascunhos, numa qualquer entrelinha cuidadosamente subtil. Não encontrando qualquer reflexo de ti, deixaste descair os lábios, como as tuas mamas

(as tuas mamas caídas, esquecidas da sua tumescência quando das minhas delicodoces investidas, logo após)

ainda esperando perceber algo que se parecesse com o teu nome, ou o seu som, sussurrado a meio de uma confissão patética de amores exacerbados. Depois, a hora tardia no relógio para ti, multiplicando uma distância que urgia, dois acenos breves de falso sorriso, tu vestindo a blusa e a saia em meneios de timidez

(logo após teres entrado de rompante, te despires, e implorares que te querias toda para mim)

a madrugada de surpresa esfriando como um fardo sobre a tua partida. Nenhum de nós se voltou antes a procurar gestos que contradissessem, foi tudo muito simples.

Sei bem o que houve entre a tua procura nestes papéis rasurados e a partida do táxi que te levou

(quando tu toda para mim significava que eu todo para ti num eviterno amor)

quedei-me a lembrar de cada momento do teu semblante, sempre aparentando serenidade, mas com essa avidez do olhar seguindo o traçado da escrita, depois a distância que nos separou naquele momento incerto, talvez eu já rendido à melancolia com que ainda levei até à porta, a esperar que entrasses no carro, embaciada pelo vidro da janela do assento de trás.

Estando agora eu só, e me sobram os espaços que ditarão o silêncio daquilo que doravante não serve à escrita – circunstância subvertida por qualquer entrelinha descuidada, sem sinais de subtileza –, levo o copo de uísque à beira-lábio, torcendo a minha boca numa espécie de esgar, desistido do lápis e dos rascunhos

(eu apenas quis sexo ou, por ele, chegando a algo de que ainda não tinha discerni – o amor é uma parábola distante, ou outros mais espaços entre nós)

desistido de ti, como quem investe a sua sobrevivência após uma derrocada.


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foto de Henri Senders

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