da tua iniciativa
Sentas-te, e as palavras não estão contigo. Abres os dedos afagando o regaço, e a tua mão tropeça num soluço inaudível. E servir-te-ia chorar para esquecer, para afogares uma mágoa em auto-comiseração. Eu aguardo no mesmo silêncio: o meu mais feito de culpas. Sustenho a voz para não te atrapalhar a equação dos teus pensamentos. Sempre foste tu quem decidiu o que fazer. Quero, pois, que sejas tu outra vez a tomar a iniciativa, encontrados numa encruzilhada sem a clareza do óbvio, e que me voltes a guiar - sempre o fizeste, pelo caminho que achaste o melhor para ambos. No teu corpo sinto que reside uma impaciência, parece-me que te vais mover, mas nem o olhar manifesta qualquer intenção de movimento. Eu sigo silencioso, remexendo devagar as minhas algibeiras, levantando e poisando os livros em cuidado, receando que a movimentação do ar te altere o alinhamento da solução para isto. Foram longos minutos, não sou capaz de discernir se medidos em horas – só sei que estamos assim há muito tempo, desde que te disse o que disse e te sentaste. Agora que a minha boca, rendida ao cansaço, solta um ou dois bocejos, e depois de tanta paciência esperando que da tua condição de estátua surgisse o epílogo da nossa presença diante do outro, as tuas mãos erguem-se, seguindo a explosão indignada da tua boca que me acusa de não fazer qualquer esforço para superar a situação.
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foto de Artur Kayukov

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