nada restou


Ficaram breves as fotografias, entre o espaço do que foi um terno abraço e do que havia de ser um beijo predicado. Fingimos prender esses momentos numa eterna felicidade que, afinal, restou oca, nada real ficou para testemunhar o que vivemos, senão essas sombras impressas por uma luz que o papel cruelmente deixará ao juízo nocivo do tempo.

Queria que não tivesse sido assim. Decidiste a separação, e eu fui escrevendo esquecimento com ponto de interrogação durante dias a fio em papeis sem qualquer sinal de tinta. Os meus dedos acabaram por desenlaçar-se perante o espanto das árvores esforçadas em devolver a verdura das folhas e a maciez do fruto, apesar do vento a alarmar as portas, apesar de um aguaceiro enlameando os prados que, em março, sempre desejei floridos.

Tudo em conjuro como se conjugando o verbo partir

(ou quebrar, ou fugir, ou morrer)

quando levaste de mim o teu rosto trigueiro que me sorria todas as manhãs a melodia dos bons dias. A elas, às manhãs, deixei-as entre o fumo espesso de um cigarro angustiado e esse patético arquétipo luso das brumas, na esperança de que uma asa de borboleta pudesse dar uma volta ao tempo e nada disto se passar. Mudando o pior do que fomos, influenciar o que somamos. Mas, nenhuma borboleta, nenhum efeito. Estamos perante o que nos sobrou: luz que o papel das fotografias deixará ao juízo nocivo do tempo.

Então, saíste com acenos nervosos de despedida e eu fiquei. Imaginei que poderia ser eu que levantaria voo numa liberdade que não pedi, atordoado e inquieto. Subindo para longe enquanto tu, o meu sossego e o meu abrigo, ficarias perdida no chão observando, muda e queda, o quanto eu me afastava subindo, acenando-me apenas com os cabelos esfarrapando ao vento. 

Se eu pudesse escolher o cenário seria esse, desculpa o atrevimento e a falta de noção. Porque, do que fomos, nada restou. Eu não pude dizer qualquer palavra em minha defesa, quando fechaste a porta.


_
foto de Alexey Ektov

Comentários