balada para uma mulher


Havias de erguer um mundo novo para mim, mulher, que eu já vou morrendo neste por tudo, a alfinetar desgostos e frustrações nas frinchas que as paredes à minha volta vão abrindo, solícitas, pacientes e acolhedoras dos tremores com que vivo.

Vem um vento, manso e quase morno, desarticulando-te o penteado em suavidade, e eu desperto ronronando como felino, num espreguiçar atento ao movimento perfumado da tua melena.

Eu, que queria morar nos teus lábios como quem encolhe o rosto numa ternura infantil, amordaçado continuo sobrevivendo nos sonhos onde supostamente nos pertenceríamos, embora em redoma e inalcançável como os santos a quem se reza por mistério. Desvias o arrepio da tua pele sensível à primavera mal-nascida na polpa dos meus dedos, tão desnivelada quanto ao que sinto, que me questiono se é na mesma latitude que nos vemos, ou se serás espectral aparência de quem tanto deseja.

Poderia simplesmente dizer-te o que quantos amantes dizem às suas amadas em afã epistolar. Mas, como vai e está o mundo, mulher, que enredo possível para que pudesse sentir a tua mão cruzada na minha, como os amantes e suas amadas fazem? Fiquei a duvidar - confesso que duvido sempre - mas ainda fui capaz de te chegar com um sorriso atrelado a uma esperança muito pequena e insignificante. Desse sorriso, porém, não te abala a lembrança, encostada que segues sempre na distracção por todos os cenários possíveis da nossa eventual trágico-comédia a roçar esses temas do cinema europeu excêntrico que excita vários de pontos de interrogação aos espectadores, e que tanto admiras como verdade absoluta.

E, apesar de tudo, e de tanto isso que fazes e insinuas, que me põe a tremer como varas perdidas de insegurança, apesar de estar de costas para a verdade, se me abrisses os braços como a esse teu mundo os abres, e devolvesses a luz de um olhar mais cúmplice, poderia então jurar-te, mulher, que venceria o mundo por ti.


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foto de Sarah Treanor

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